Como ser madura

Eu sempre quis ser madura. Sério.

Enquanto a maioria das meninas da minha idade se preocupa em ser bonita, eu também me preocupo – mas com a consciência de que não tem muito jeito mesmo. Enquanto muitas meninas da minha idade se preocupam em se tornarem mais inteligentes, eu também me preocupo – só que a minha vontade de ler Kafka ou qualquer outra coisa mais cult costuma ser inversamente proporcional à minha vontade de ouvir a nova música da Katy Perry, por exemplo. Não me orgulho muito disso, mas é. Enquanto gente da minha idade costuma se preocupar com essas coisas, eu sempre me preocupei em ser madura.

Desde que eu me entendo por gente. Lembro que desde criança eu sabia que não era ~top~ nessas duas coisas aí de cima (beleza e inteligência). Também nunca fui esperta/ágil, duas coisas muito importantes quando você é criança e sofre um leve bullying. Então eu queria ser diferente, eu queria ser articulada, eu queria ser criativa, eu queria que as pessoas pensassem em mim do tipo “nossa, aquela menina Fernanda, ela é…” e ficassem assim, sem palavras. Claro que nunca rolou. Um dia, eu devia ter uns doze anos, falei pra minha mãe que eu era madura pra minha idade. Ela riu da minha cara. Mas eu realmente achava que não ficar brincando de bater nos coleguinhas era um sinal óbvio da minha mente mais evoluída (pode rir, é a intenção).

Daí, quando eu era adolescente, eu tive a grande e dura prova de que eu não era madura porra nenhuma. Fazendo um pequeno flashback, eu era conhecida na família por ter um gênio forte. Não aceitava certas situações, sempre soube o que eu queria e o que eu não gostava, enfim. É só pra você entender que, quando o menino que foi meu primeiro amor, minha paixão do colégio, terminou comigo pelo MSN, eu achei de bom senso fazer um drama mexicano com ele e falar todas as merdas que eu quisesse. Ele ficou chateado na hora e depois comentou com uma amiga minha que eu era criança e que eu tinha morrido pra ele. Juro por Deus que foi a pior coisa que eu já ouvi de alguém na minha vida. Ok, já podem ter falado coisas muito mais horríveis de mim (afinal eu fui uma criança gordinha e a gente não passa por isso intacta). Mas essa foi a que doeu mais.

Eu tinha 14 anos nessa ocasião e, depois de chorar um pouco na frente do computador, eu decidi que ia mudar, aprender com os meus erros (que não se restringiam a esse caso) e ser madura de verdade. E foi o que eu fiz mesmo. Passei dois anos vendo a cara desse menino todos os dias e lembrando da pessoa melhor que eu queria ser. Por mim e pra mostrar pra ele, é verdade. No fim do terceiro ano, exibi muito orgulhosa um powerpoint com “Learn to Fly” tocando ao fundo e falei do tanto que eu tinha aprendido com aquelas pessoas da escola (era um trabalho da aula de religião, tá. Eu não fico apresentando powerpoints com Foo Fighters apenas porque acho daora, haha).

Mas depois eu fui pra faculdade e vi que não sabia nada do mundo, que vivia na minha bolha do colégio, enfim, essas coisas que eu acredito que entrem num nível ok de inocência da transição adolescência/vida adulta, né. Só que eu acho que eu aprendi a diferença entre ser madura e ser séria. Antes desse acontecido dos 14 anos, eu achava que era uma pessoa séria, que não era uma teenager babaca, e não era mesmo. Mas a maturidade emocional meio que não existia.

Aí eu entendi que você não precisa pagar de séria pra mostrar que já sacou um pouco mais da vida o suficiente pra não fazer (tanta) cagada. Que essas crianças que são muito inteligentes, essas prodígio que vão no programa do Faustão e fazem comentários de adulto do tipo “foi um presente trabalhar com a Fernandinha Montenegro, ela é uma querida”, elas são muito chatas. E que tem hora pra ser da zuera e tem hora pra ser do profissionalismo. Tanto que hoje uma das minhas maiores “ídolas” é a Jennifer Lawrence, que faz trabalho digno de Oscar mas também é divertida e fala as maiores groselhas dignas de uma menina da nossa idade.

Ainda hoje tem algumas situações em que, quando dá, eu paro pra pensar em qual seria a atitude mais madura a tomar. Às vezes essa atitude é inerente e você nem pensa em fazer outra coisa. Às vezes a vontade mesmo é de fazer algo muito idiota e errado, mas que você sabe que é certo no seu coração. E às vezes você simplesmente não sabe se a atitude que está tomando é madura ou não, se é certa ou não, mas é a única coisa que aparece na sua cabeça. Provavelmente eu tô em alguma situação assim no presente momento e ainda vou estar em algumas situações assim em futuros momentos.

E, não querendo pagar de mulher experiente nem nada (do alto dos meus 21 anos isso seria um bom motivo de risos), mas acho que é assim mesmo. A sensatez dos nossos pensamentos e das nossas ações é invisível em alguns momentos. De vez em quando só dá pra enxergar mesmo depois de ver na prática – que pode não ser tão acertada. Mas sabe uma coisa que dá pra aprender e levar pra vida toda na base da teoria/conselho? Saber lidar com as consequências. Se você souber mesmo aguentar o que pode vir junto com cada opção que tomar na vida, então pronto, tá aí a sua maturidade.

Nem precisava de um texto tão grande desse. Mas mostra isso pra alguma menina de uns 14 anos que você acha que pode estar na pior por causa de imaturidade. Ou pro menino que me fez querer amadurecer de verdade, se você conhecê-lo. Ele não deve nem lembrar de mim, mas acho que eu gostaria que ele soubesse que, se as minhas amigas do trabalho diziam que eu era a mais sensata do grupo, ele tem um pouco de culpa nisso. Se eu já consegui terminar outros affairs com serenidade, ele tem muita culpa nisso. E acho que já tô madura o bastante pra não ficar vermelha de vergonha se ele souber da minha versão da história (mentira, vermelha eu sempre fico e sempre ficarei. Meu jeitinho imaturo de ser ;).

A gente não nasceu com esse dom, Jen, fazer o quê. #mulheresmaduras

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Uma opinião sobre “Como ser madura

  1. 3 coisas:

    - eu realmente pensei que você tivesse mandado um powerpoint com Foo Fighters pro menino. o que realmente seria melhor do que eu fiz, que foi uma carta com a letra de uma música de Zezé di Camargo & Luciano (na 8a série).
    - amo a expressão “groselha”. vou usar mais.
    - 21 anos. jesusabençoado, fê. eu vou ali procurar minha maturidade e já volto, guenta.
    <3

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