Acumuladores do coração

Dia desses, eu resolvi dar uma volta em um dos lugares que eu mais amo (e que a minha rinite mais odeia) em São Paulo: o Sebo Messias da Praça João Mendes. Meu pai sempre me levou em sebos desde que eu era pequena, e hoje eu mantenho uma relação bem amorzinho com eles (com todos eles, mas com esse em especial). Estava eu, andando pelos corredores e espirrando um pouco, quando cheguei à prateleira com os livros da Lygia Fagundes Telles, uma das minhas escritoras preferidas. Achei um livro dela que eu queria ler há muito tempo. Custava R$ 30. Para um livro de sebo, esse preço é caro. Aí eu reparei que essa valorização era porque o livro era especial: ele vinha com autógrafo da autora. Não um autógrafo simples, tipo só assinatura. Era uma dedicatória mesmo, aparentemente para um colega dela. Óbvio que comprei e achei legal. Mas também achei meio WTF? a coisa toda.

Fiquei pensando em como aquele livro tinha saído das mãos do dono original e chegado até as minhas. E se era realmente possível que alguém tivesse ganhado uma dedicatória dessa mulher e fosse capaz de se desfazer assim desse livro. É claro que existe a possibilidade de a pessoa ter morrido e a família ter vendido seus livros ou alguma outra solução que tire a culpa dela. Mas pensando que o que aconteceu foi só um ato de desapego mesmo, eu juro que não consigo entender. Vai ver é porque eu faço parte de um grupo de pessoas meio loucas dessa sociedade maravilhosa: os acumuladores do coração.

Acumuladores do coração são uma versão mais tímida e sentimental daquelas pessoas que aparecem naquele reality do Discovery. Mas não se engane, a maluquice é mil grau do mesmo jeito. Acumuladores do coração são aquele tipo de gente que guarda toda e qualquer coisa que provoca ou já provocou algum sentimentozinho dentro deles. Qualquer coisa que represente alguém, alguma situação ou alguma época. Simplesmente fica difícil ou impossível se desfazer desses objetos, porque você tem certeza que vai estar jogando fora uma parte da sua vida.

Nas próximas linhas eu darei alguns exemplos de como uma acumuladora do coração pode ser uma pessoa retardada. Se você ainda tem algum respeito por mim, eu sugiro que você pare de ler, porque “things are about to get ugly”. É que assim, eu acho que existem níveis entre os acumuladores do <3. Por exemplo:

Nível 1: ter uma “caixinha das recordações”, por mais coisa de vó que isso possa parecer. Na caixinha estão guardados cartões postais, ingressos, cartinhas…isso todo mundo guarda, né?

Nível 2: guardar presentes antigos e objetos comuns que te façam lembrar uma pessoa ou situação muito feliz, por mais coisa de pré-adolescente que isso possa parecer. Tipo ainda ter um CD do Evanescence que você ganhou no amigo secreto da sétima série e que você não ouve desde 2004 (se é que você ouviu alguma vez em 2004).

Nível3/4/5/créu: guardar objetos muito bestas ou coisas que você realmente nem deveria querer guardar, por mais coisa de idiota que isso possa parecer. Como um mapa de um show que você foi, páginas do seu caderno de matemática do colegial, um origami que você aprendeu a fazer quando tinha 9 anos ou – o pior de tudo – mensagens de pessoas que você amava muito. Eu por exemplo (aliás, todos os exemplos acima são da minha vida mesmo) descobri semana passada que tenho mais de 90 mil (sim, você leu certo) mensagens trocadas no facebook com um ex-peguete. Pelo bem da minha sanidade mental, eu pretendo nunca, nunca mesmo, mexer nas antigas e relembrar a nossa relação. Mas também devo dizer que fiquei muito feliz de saber que todas essas mensagens estão muito bem armazenadas e que a nossa relação está muito bem documentada lá (vai que um dia alguém resolve fazer um livro ou filme sobre a gente, né. Seria uma dramédia ótima, cês iam rir muito).

Enfim, o fato é que nós, acumuladores do coração, muitas vezes somos incompreendidos por essa sociedade. Revistas femininas mandam você queimar fotos com ex, amigas mandam você tirar aquela música da playlist, mães mandam você limpar a gaveta. E você, você se sente injustiçada. Porque você não consegue se desfazer dessas coisas sem achar que tá arrancando um pedaço do coração – vai ver até poderia doer menos arrancar um pedaço do coração #mimimi. Porque você tem que sofrer esse bullying todo e nem ganha um reality no Discovery. E porque no fundo você sabe que não é muito normal. Mas acha muito mais insano quem tem coragem de se desprender tanto das memórias afetivas a ponto de vender para um sebo um livro com a letra “da amiga Lygia/Maio 1979”.

Um beijo pra quem acha que essa é uma das cenas mais pesadas de toda saga HP. ;(

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