Não é fácil ser uma ativista da estabilidade

Tem muita coisa nessa vida que é muito, muito difícil. Por exemplo, é muito difícil achar um pufe vago para sentar na Livraria Cultura. É muito difícil passar do nível 65 do Candy Crush. É muito difícil consertar um coração partido. E é muito difícil assumir que você prefere a estabilidade em um mundo que despreza a rotina.

Pois é, vou falar uma coisa aqui que vai chocar a galera que curte a vida adoidado: eu gosto de rotina. Eu adorava saber que eu ia passar uma semana inteira no trabalho sem ter que sair pra fazer uma pauta complicada; que eu ia chegar todos os dias, sentar na minha mesinha, escrever minhas matérias, sair na minha hora e gozar da minha tranquilidade corporativa. Adorava ir pra faculdade naquelas semanas depois das provas, em que eu sabia que não teria nenhuma tensão; ia só chegar, sentar na minha cadeirinha, assistir minha aulinha (ou, na maioria das vezes, dormir na minha aulinha) e depois ir pra casa ou estágio. É claro que também era legal quando tinha um evento pra cobrir no trabalho ou uma palestra interessante pra assistir na faculdade. Mas acho que, enquanto as outras pessoas morriam de preguiça dos dias normais, eu me sentia bem quando sabia que eles seriam assim, normais.

Gostar de estabilidade nunca foi uma coisa muito bem aceita pela sociedade – pelo menos não pela sociedade menor de 30 anos. Eu sempre tive dificuldades pra lidar com isso com os amigos. Não gostava de sair à noite sem um rumo certo, não gostava de ficar sem pelo menos uma certa quantidade de dinheiro na conta, essas coisas que a gente acha que está fazendo apenas porque é o certo, mas na verdade, inconscientemente, são tentativas de se proteger dos perrengues da vida.

Só que, como a vida nada mais é do que uma sucessão de perrengues pelos quais ou você passa ou você se afunda, é claro que ela me pregou uma peça muito linda. Eu, a única fã da rotina, fui obrigada a entrar em um estilo de vida em que rotina é apenas um conceito abstrato. Não fui efetivada no emprego, não engatei uma pós depois da minha graduação, não consegui transformar em relacionamento sério um rolo que tive por meses.  E até hoje não tenho nenhum laço fixo com nenhuma empresa nem com ninguém, romanticamente falando. Eu sou tipo a Marnie de “Girls” nesse gif.

Naquela novela “Viver a Vida” (ou era “Páginas da Vida”? nunca sei), não tinha aquele momento no final em que as pessoas iam contar suas histórias de superação? Então, se a novela estivesse no ar agora, eu super poderia ir lá dar meu depoimento. De como consegui não enlouquecer no primeiro mês “desempregada”. De como continuo não sendo a maior entusiasta da v1d4 l0k4, mas aprendi a gostar de passar um tempinho com ela de vez em quando. De como administro muito bem, obrigada, os trabalhos de freelancer que não paro de fazer, os flertes que podem ou não ir pra frente, o futuro que não é claro o bastante pra me deixar saber onde eu estarei em setembro do ano que vem. Mas né, quando que o futuro é claro bastante? Nunca, vamos aceitar que dói menos.

Hoje, me sinto bem admitindo que meu lado mais ~soltinha~ está muito feliz assim (inclusive descobri que meu tom de base na Quem Disse Berenice? se chama “soltinha”. Isso não foi um merchan, foi só um fato engraçado que eu quis compartilhar mesmo). E percebi também que a estabilidade, apesar de ser muito sedutora, também é perigosa, porque pode levar a uma coisa péssima: a acomodação. Por isso, eu não queria que esse post se tornasse uma apologia nem à estabilidade nem à vida sem rumo. Tô achando que ele tá mais pra uma tentativa de favorecer o equilíbrio (o que, cá entre nós, também é uma coisa meio zzz e não muito praticada pela sociedade menor de 30 anos).

E, só pra constar, eu posso ter aprendido a viver mais livremente, mas meu ascendente em capricórnio nunca me deixa totalmente livre. Um exemplo: eu fui em uma das manifestações do MPL aqui em São Paulo, a que teve em 17 de junho. Enquanto as milhares de pessoas se preocupavam com as palavras de ordem, eu, além disso, também não parava de pensar em: “pra onde a gente está indo? onde eu vou me esconder e ficar protegida se der merda? vou conseguir chegar até perto de algum metrô?”. Pra você ver que não é fácil ser uma ativista. Mas é mais difícil ainda ser uma ativista da estabilidade.

“Crazy”, do Aerosmith: o clipe que é a fantasia secreta de toda garota-rotina 😉

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