Filha única, único decreto: não enche

Às vezes, as pessoas fazem algumas perguntas sem querer ser muito intrometidas, mas já subentendendo que você vai dar determinada resposta que será a explicação para uma suspeita negativa delas. Por exemplo, se você anda meio perdido pela rua ou pelo metrô, não te perguntam se você está com algum problema, ou mesmo por que você anda tão devagar. Te perguntam se você não é daqui.

Um exemplo mais clássico disso é: quando a pessoa é meio chata, ou criteriosa, ou aparenta não dar valor àquilo que ela tem, não se pergunta sobre isso. Geralmente, a pergunta é: você é filha única?

Ser filha única é uma coisa mágica. É só você dizer que é e, automaticamente, as pessoas já tiram 437634 conclusões sobre você. Experimenta um dia (mas num dia em que você estiver bem zen e quiser rir da perspetiva alheia – sério, só rindo mesmo). Já te adianto que o que você deve ouvir são coisas do tipo: “ah, então é mimada”, “nunca precisou dividir, né” e “vish, ciumenta!”.

Ouvi isso de um médico essa semana e fiquei puta. Fui pra consulta porque estou com sintomas de gastrite nesse ano. Ele, acreditando que meu estômago estava chiando porque eu guardo 98% das minhas angústias pra mim mesma (no que estava certo), concluiu que eu fazia tempestade em copo d’água porque sempre tive tudo de bandeja na vida (no que não podia estar mais errado). E logo completou: “é filha única? ah, então tá explicado. todo filho único nega, mas são sempre mimados”.

Querido médico, vamos analisar suas belas palavras. Se eu realmente tivesse tudo na minha mão sempre que eu quisesse, provavelmente não estaria com gastrite nervosa, né? Sei lá, só acho. Segundo, é questionável a questão do “mimada”. De fato, eu moro com a minha avó e ela faz as sobremesas que eu gosto, sim. Mas, de fato também, meus pais não pagam nenhuma das minhas contas pessoais desde que comecei a ganhar meus próprios salários e nem saem para brigar por mim por coisa alguma desde que eu me entendo por gente. Então né? Generalização babaca, a gente vê por aqui.

É claro que isso é um desabafo pessoal, mas todo filho único sabe do que eu tô falando. Exite uma tendência a condenar a conduta de uma pessoa que não tem irmãos como se fosse culpa dela. Não interessa se meus pais não tiveram saúde e/ou grana pra ter um segundo filho, se eles nunca me colocaram num pedestal por isso ou se eu me sinto solitária em qualquer evento de família. Interessa julgar as minhas dificuldades como consequências disso. E achando que é super normal e que não ofende, porque, afinal, eu tive o privilégio de não crescer com o perrengue de ter um irmãozinho.

Me deixa contar o real perrengue. Como filha única, todo o amor dos meus pais e parentes vêm pra mim, sim. Mas toda a pressão também. Desde passar o vestibular até ter um namorado, casar, e prover netos (sim, ouço essas cobranças constantemente). E, caso isso não aconteça, vou envelhecer sozinha, sem um irmão pra compartilhar minhas memórias de infância. Pior, vou ver o envelhecimento dos meus pais sem um irmão pra me ajudar a segurar a barra. Ainda parece privilégio?

Da mesma forma que eu não quero ser julgada por ser filha única, também não posso me sentir “coitada” por isso – é apenas uma escolha que eu não tive e uma forma que tenho que levar a vida, ponto. Tanto que eu não acho que isso me defina tanto assim a ponto de ter características pré-estabelecidas. Tenho amigos com irmãos (1, 2, 3) que são muito mais “filhinhos de papai”, muito mais “o mundo gira em torno de mim”, muito mais “Quico, conta tudo pra sua mãe”, mas nem por isso chego neles e falo “ah, você tem irmãos? então tá explicado”. Fez sentido isso? Não, né? Pois é.

Defeito todo mundo tem, uns são por circunstâncias pelas a pessoa passou (ou não passou) e outros nasceram com ela. Eu ouço que sou “filha única” (sim, é “defeito”) há 22 anos, e né, se fosse resposta para todos os meus problemas eu com certeza não estaria gastando meu dinheiro com omeprazol.

Daí você pode estar pensando, “tá, mas escrever um post desse é a coisa mais filha única mimadinha mimimi que se pode imaginar”. Cara, vai ver que é. Mas eu juro que só queria que entendessem que, como filha única, eu não ganhei um irmão. Ganhei um monte de gente pentelha que vem encher meu saco desde sempre por circunstâncias que dizem mais respeito aos meus pais do que a mim – e que eles também não são obrigados a ficar se justificando. Até porque a vida também é única, para que cada um cuide e mime (mas mime bastante mesmo) apenas a sua.

Só queria lembrar que Rachel tinha duas irmãs e era a mimada da série, enquanto Chandler era filho único e também o mais cagado na vida, obrigada

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2 opiniões sobre “Filha única, único decreto: não enche

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