Minha primeira vez (em uma cozinha comunitária)

Eu sempre falei sobre mim mesma como alguém que gosta de comer. Bastante. Eu amo comer. Eu poderia dizer que já comi um cheesecake inteiro sozinha uma vez (era festa de fim de ano, todo mundo faz ogrice, né? Não?) ou que já sinto fome geralmente meia hora depois de qualquer refeição, mas eu acho que, para uma primeira impressão, isso não soaria muito bem, então esquece.

O fato é que eu nunca precisei cozinhar. Eu não sou casada e raras vezes ouvi aquela frase de vó “já pode casar!” – todas foram quando fiz doces. Eu ainda moro com meus pais e minha mãe cozinha super bem. Eu vejo receitas e fotos de comida no Pinterest e, em vez de pensar “que legal, quero fazer”, eu penso “por que tentar fazer se eu sei que vai ficar uma bosta e eu posso comprar tudo bonitinho?”. Então tô acostumada a ter comida decente em casa e comida #gordasafada por preços módicos (ou nem tanto, visto que sou de São Paulo, uma cidade dominada pelo raio da gourmetização).

No entanto, essa situação mudou um pouco. Decidi que iria morar longe de tudo e de todos na cidade que eu já sabia que amava mesmo antes de conhecer: Nova York. E fui. Morei em um prédio estilo dormitório que abrigava estudantes de várias faculdades e escolas. Em vez da comidinha da minha mãe, eu tinha uma cozinha comunitária. E eu teria que usá-la se quisesse sobreviver.

Quando eu cheguei lá pela primeira vez, vi que não é só uma cozinha comunitária. Tinha uma mesa comunitária também. Esquentei meu frango teryiaki congelado com arroz e vegetais, enchi um copo de água, tirei meu Ben & Jerry’s sabor Red Velvet Cake (aka o melhor sabor do mundo) da bolsa e sentei. Do meu lado esquerdo, tinha uma menina com uma caixa em que estava escrito “A história da Quinua”. Do meu lado direito, um cara com uma garrafa (é, era mais pra uma garrafa do que pra o potinho que a gente conhece) de ketchup que, juro, era maior que o prato de macarrão dele. Na minha frente, um cara que também estava com comida congelada e também tinha trazido sorvete de sobremesa (sério). Também na minha frente, uma menina parou de comer sua salada quando o clipe de “Shake It Off” da Taylor Swift apareceu na TV. Ela começou a dançar um pouco na cadeira. As meninas do outro lado da mesa também. Eu percebi que também estava balançando minha cabeça no ritmo da música.

Eu entendo a ideia de cozinha como um local social(izador). Um lugar que junta as pessoas por causa da comida. Esse conceito é confirmado ao mesmo tempo em que é desconstruído nessa cozinha comunitária. É claro que ela junta as pessoas – até demais. Tinha uma menina perto de mim cuja comida (um arroz amarelo com um steak) tinha cara e cheiro tão bons que eu só queria dizer “I’ll have what she’s having”. Mas, apesar de as pessoas estarem “juntas”, eu não tive a sensação de “união”. Apenas alguns estavam cozinhando em grupo, a maioria das pessoas estavam comendo sozinhas, uma menina estava tirando foto da comida dela (a mesma que estava dançando na cadeira) e alguns estavam até fazendo sei lá o que no computador enquanto comiam.

Depois do meu primeiro dia na cozinha comunitária, comecei a pensar que talvez a palavra comunidade se refira, além do conceito de sociedade, ao conceito de compartilhamento. Quem estava cozinhando compartilhava os fogões e pias, as meninas compartilhavam o gosto pela música ambiente da cozinha, as pessoas no computador compartilhavam o wifi, eu compartilho a falta de talento para cozinhar com o cara que também tinha comprado sua comida congelada. Eu sempre fui mais interessada em comer, mas ver como outras pessoas do mundo todo comem e preparam suas comidas é bastante interessante também a cada jantar.

O clipe da Taylor Swift terminou. A menina parou de dançar na cadeira e compartilhou a foto da comida no Instagram.

Eu e Rachel na cozinha daria o melhor episódio de Friends de todos os tempos

Epílogo: Consegui sobreviver em NY mesmo sem cozinhar, com a valiosa ajuda dos meus amigos Subway, Starbucks, Shake Shack e Smart Ones (a marca da comida congelada). Mesmo assim jantei na cozinha comunitária e nem fui julgada pelas minhas pobres escolhas gastronômicas. Um lugar que guardo no ❤

Epílogo 2: Nem sou tão inútil na cozinha. Sei fazer macarrão, ovo frito, strogonoff de queijo, salada e qualquer modalidade de comida que possa ser grelhada no George Foreman. Sem falar nos doces como pavês, bolo de caneca e cheesecake. Ou seja, já posso casar se o noivo não for muito exigente (isso vale não só pra minha falta de prenda com as panelas, mas para toda a minha pessoa).

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