Flanêurette

Sabe quando você é criança e sua mãe te diz pra não falar com estranhos? Ou quando você acabou de tirar sua carteira de motorista e seus pais falam pra você não ir muito longe? Ou quando seus professores ou chefes te dizem para ter foco e não desviar do objetivo? Pois é, eu fui uma boa menina e obedeci a todos eles durante toda minha vida. Mas não adiantou. Há alguns dias, eu me vi falando com estranhos (bem estranhos, aliás), consideravelmente longe de todo mundo que eu conheço e bem distraída. Basicamente, eu estava perdida.

Era uma manhã de domingo, meu primeiro mês em Nova York. Manhãs de domingo são a melhor parte da semana para ser flanêur (a expressão flanêur quer dizer, por alto, um explorador urbano, alguém que gosta de andar pelas ruas e sentir a cidade). Não é um dia de semana, quando as ruas estão cheias e as pessoas não estão sempre em seus melhores humores. Também não é sábado, quando dá para sentir a ansiedade das pessoas para aproveitar o dia e curtir o fim de semana ao máximo, como se a segunda-feira fosse um monstro. Nas manhãs de domingo, esse desejo geralmente se transforma em sono ou brunch, então as ruas são quase todas suas.

Era uma ensolarada e fria manhã de domingo. Quer dizer, um New Yorker deve ter achado que estava ok. Mas, como sul americana, eu estava congelando. 8º C mais vento em um país tropical é considerado inverno pesado. Eu acho que a última vez que eu tinha usado o casaco e o cachecol que usei nesse dia havia sido há quatro anos. Em 2014, minha cidade só teve “inverno” por uma semana ou duas, e foi tipo 11ºC. É.

Era uma ensolarada, fria manhã de domingo e eu tinha decidido que não iria passar o dia no meu bairro. Eu estava morando na parte mais ao norte da cidade (Uptown) desde que havia chegado, mas amo a parte mais ao sul de Manhattan (Downtown) e seu charme antigo. Eu gosto do fato de que ela não é sempre bonita  – ou bonita de um jeito óbvio tipo a 5ª Avenida ou Park Avenue – mas tem muito mais personalidade (seria clichê dizer que tem estilo, porque até aí a cidade toda tem, então acho que “personalidade” cai melhor).

Encantada por essa personalidade charmosa, eu pensei em ir para os “Villages”, primeiro o East e depois o West. Eu estava lendo um livro da Suze Rotolo chamado “A Freewheelin’ Time” (eu ainda tô lendo esse livro. Eu costumo ler dois ou três livros ao mesmo tempo. Não é de se estranhar que eu me distraia). Na introdução, ela fala sobre sua relação com o Greenwich Village. Eu não me sinto exatamente da mesma forma, mas acho que conheço o sentimento.

Ela escreveu: “Era para o Greenwich Village que as pessoas como eu iam – pessoas que sabiam que suas almas não pertenciam ao lugar de onde elas vieram. Eu fui atraída pelo Village com sua história de boemia – onde os escritores que eu estava lendo e os artistas que eu admirava tinham vivido ou passado. Os espíritos deles mostraram o caminho e nomearam o local. Eu entrei no metrô”.

Eu também. Meu plano era ir à Hester Street Fair, uma feirinha com artesanato, comida, essas coisas que eu amo e vou em qualquer uma, em qualquer lugar. Eu poderia pegar o trem da linha 6, descer na Rua 59 com a Lexington e pegar o trem da linha F na Rua 63 em direção a Downtown.

Teoricamente eu poderia. Fins de semana são bons para “carpe diem” e todas essas coisas, mas às vezes é difícil “carpe fds” no metrô de Nova York. Na minha curta experiência, eu já havia percebido que os trens demoram mais tempo para chegar nos sábados e domingos e oh, às vezes eles simplesmente não chegam. Não havia trens sentido Downtown na estação da Rua 63, então eu voltei para a linha 6 e desci na estação da Rua Bleecker.

Eu deveria ter ficado bem e deveria ter encontrado meu caminho lá. Mas, tentando ser uma flanêur de verdade, decidi ~deixar a vida me levar~. Poderia pegar os trens das linhas D e F para chegar onde eu queria; pegaria o primeiro que aparecesse. Foi o D.

Para minha surpresa, Grand Station, minha parada final, estava lotada. Tipo, t~~ao lotada que tava difícil de andar lá pelas 11h. Por ser de uma cidade grande, eu não tenho medo de multidões. Me sinto mais segura no meio de uma multidão do que em um lugar super vazio. Mas, de repente, eu saí da estação e vi uma Rua Hester quase vazia. Eu não sabia que estava em Chinatown. E, aparentemente, eu era a única em Chinatown naquela manhã de domingo. A apenas um quarteirão de distância, não tinha mais ninguém na rua. Só eu.

Chinatown não é uma vizinhança muito amigável. Pelo menos nas ruas em que eu andei, era tudo majoritariamente marrom e cinza, a arquitetura não tinha nada de especial, a decoração muito menos e o lixo nas calçadas não eram exatamente um convite a um passeio. Não havia cachorros ou pais com carrinhos de bebê para dar aquele conceito de família. Só tinha eu mesmo (e algumas pombas).

Comecei a ficar angustiada,. Não havia carros passando, certamente não seria fácil conseguir um taxi pra sair dali se fosse necessário. Todas as lojas estavam fechadas e eu nem sabia que tipo de lojas eram aquelas porque tudo estava escrito numa língua que eu não entendo. O sentimento de desamparo era enorme. Eu tinha 3G, eu tinha Google Maps, mas mesmo assim eu pensava:

1) Eu obviamente não pertenço a esse lugar

2) Eles (os moradores e comerciantes) obviamente não querem que eu pertença a este lugar, porque eu nem os vejo em um domingo de manhã e nem consigo decifrar o que eles estão vendendo nas lojas

3) Por que eu não esperei a bosta do trem da linha F????

Andei mais dois quarteirões e cheguei no Seward Park, onde o evento aconteceria. Mas não tinha nenhuma Hester Street Fair ali. Nada. Mais uma vez, não tinha ninguém por perto, o que parecia muito estranho. Até agora eu não sei se confundi o dia, a hora, o mês, o local ou todos os anteriores. Parabéns pra mim, flanêur do ano.

Mas, ao mesmo tempo, a situação toda pareceu tão sem sentido que eu me senti um pouco aliviada. Algo tipo “o pior já passou”. Como eu já estava lá, poderia aproveitar a oportunidade pra ver mesmo esse lugar. Medo é um sentimento necessário na vida – se ele não existisse, a gente viveria como se nada de mal pudesse acontecer e morreria como resultado disso. Mas vi que, quando deixava o medo me cegar, eu não estava realmente vivendo. Estava meio que me escondendo.

Chinatown pode ser bem difícil. No entanto, é isso que o “desconhecido” tem para oferecer: possibilidades obscuras que podem te deixar assustado, amedrontado, relutante ou mesmo cheio de preconceito, mas também podem te deixar cheio de informações novas e feliz pela oportunidade de conhecê-las. Eu só soube disso quando resolvi dar uma chance.

Eu sabia que tinha um cinema na West Houston e decidi andar até lá. Vi mais gente na rua nesse caminho – um cara que me perguntou se eu “precisava de alguma coisa” (eu disse que não, mas não entendi o porquê da pergunta) e outro cara dando bom dia -, mais carros e mais lojas, como mercados, bancas de jornal e até locadoras. Eu ainda me sentia como alguém totalmente de fora, mas para me sentir parte dessa comunidade eu teria que mudar toda a minha cultura ou vice-versa. Deixa assim mesmo que é mais negócio.

Acabei chegando ao cinema e comprei meu ingresso pra ver “Magia ao Luar”. Porque poucas coisas são tão típicas de Nova York como filmes de Woody Allen e se perder no metrô. Quando cheguei na sala, eu ouvia os trens passando debaixo da terra e sentia o chão tremendo um pouco. É irônico e engraçado (meio engraçado tipo Woody Allen) que eu estava procurando o metrô/a direção esse tempo todo e agora ela estava bem ali, debaixo de mim.

Tem um bairro asiático na minha cidade. Se chama Liberdade. Povos asiáticos (principalmente japoneses) vieram para o Brasil a partir do começo do século XX em busca de vidas melhores. Neste local, eles mantém a arquitetura típica e festejam os costumes tradicionais de seu povo, acho que como também acontece de certa forma em Nova York com os chineses. Eles saíram de suas cidades natais e aprenderam a viver em uma vizinhança diferente com pessoas diferentes de um país diferente. Muita coisa para se ter medo, certamente. Mas ser capaz de ter toda essa experiência, de ver o mundo como nunca antes e viver a vida que se escolheu é libertador. Isso é liberdade.

Ser flanêur também é ser livre. Não esqueça do seu cachecol nos dias frios e vai ficar tudo bem.

Até você, Chinatown. NY ❤

PS: Escrevi esse texto para minha aula de escrita criativa em Nova York e minha professora sugeriu que o título fosse Flanêurette, versão feminina de flanêur, que é um substantivo masculino. E ainda ganhei um Bravo! dela por desbravar NY desse jeito. Foi um acidente, como puderam ler, mas tamo aí na atividade ; )

 

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