Só não divido meu edredom – e outros detalhes sobre ter uma roommate pela primeira vez

O problema de ir morar nos Estados Unidos é que a gente já viu tanto filme americano que fica achando que já vai chegar lá manjando tudo. Daí a realidade te mostra que, ainda que muitas coisas sejam familiares, cada um tem suas próprias experiências nessa vida.

Ter uma roommate, por exemplo. A ideia de morar fora já é romantizada. A ideia de morar fora e ter uma roommate de outro país é ainda mais romantizada. A ideia de morar fora e ter uma roommate de outro país sendo que sou filha única e nunca dividi quarto com ninguém por mais de cinco dias é não só romantizada como também aterrorizante.

Agora vamos à parte em que começa o “sua experiência é só sua”. Cheguei em Nova York em um dia ensolarado e quente de setembro (parte feliz). Descobri que teria que esperar sete horas pra fazer o check in e entrar no meu quarto (parte “fazer o que”). Quando finalmente fiz o check in, tinha outras meninas entrando no prédio junto comigo. Mas, apesar da minha empolgação, abri a porta e…não tinha roommate nenhuma. Tive que fazer compras comunitárias de casa (tipo saboneteira, cortina de banheiro, vassoura) tudo sozinha. Essa definitivamente é a parte triste, porque realmente acho que poucas pessoas ficariam felizes ao gastar dinheiro com prato de papelão no primeiro dia em uma cidade nova depois de mais de 24h sem dormir.

Nos primeiros momentos sem roommate, sem amigos e sem família, confesso que bateu uma solidão. Mas durou uns dois dias. Depois de conhecer gente nova, me ocupar com as aulas e o trabalho e descobrir o maravilhoso mundo das farmácias que vendem de palitos de cenoura a meias, tava tudo bem. Inclusive a cama desocupada do meu quarto estava sendo muito útil pra eu deixar várias coisas que tinha tirado da minha mala e tava com preguiça de guardar direito. Minha personalidade introspectiva já tinha esquecido que podia ser legal ter uma nova amiga nessas circunstâncias e a verdade é que poucas coisas superam a liberdade e a felicidade de não precisar usar calças e beber tudo do gargalo.

Até que, uma semana depois, avisaram que a roommate ia chegar. Esperei uma tarde toda e ela não chegou. Saí pra encontrar amigos e deixei um bilhetinho fofo avisando. Quando cheguei, vi as malas, mas nada da menina. Comecei a achar que ela tava de zoeira.

Horas depois, conheci a Naomi. Naomi era mais morena que eu, mais baixinha que eu e com o cabelo mais enroladinho que o meu. Ou seja, a olho nu, mais brasileira que eu. Mas Naomi era italiana. Já achei legal, sempre quis conhecer a Itália. Inclusive falo a mesma piada pra todo italiano que eu conheço: quando eu for pra lá, vou voltar pro Brasil rolando de tanta comida, só dar um empurrãozinho e minha circunferência rolará rapidinho. Eles nunca riram muito, acho que não é muito boa.

De cara, descobri que eu e Naomi não tínhamos muito em comum. Primeiro, ela era mais velha: tinha 37 anos e eu 22 (guardem essa informação, ela se mostrará contraditória daqui a pouco). Segundo, o inglês de Naomi não era muito bom (ela achava que era mais fácil de entender o inglês na Inglaterra do que nos EUA. Não sei como). Terceiro, Naomi dormia. Muito. Eu entendo isso bem, um dos meus grandes talentos na vida é dormir, sem preconceitos – até sonhava dormindo nas aulas de matemática. Mas sei lá, em Nova York eu dormia umas 5h por dia e já achava perda de tempo. Mas Naomi dormia dias inteiros. Sério.

Apesar disso, outra coisa diferente entre nós eram os horários. Naomi era 15 anos mais velha, mas claramente eu era a idosa do quarto. Nunca esquecerei o sábado em que eu tava saindo de casa 9h da manhã e ela tava chegando da balada. E as noites de dias de semana em que eu tava de pijama de flanela, me preparando pra trabalhar, e ela tava de meia fina e saltão pronta pra enfrentar um frio da porra em alguma balada ostentação. Mas um dos dias mais legais foi quando cheguei de uma festa numa quarta-feira às 4:30h e, ainda na empolgação, fiquei dançando “New Romantics” da Taylor Swift como se não tivesse que acordar cedo no dia seguinte.

Naomi, é claro, não tinha chegado ainda. Saí de casa perto das oito e nem vi quando ela chegou.

Nossos horários de estudo também não batiam, o que fazia com que a gente só se desse tchau de manhã e oi umas 23h, quando ela chegava da cozinha do prédio. Ah é, Naomi cozinhava. O lado dela da geladeira tinha linguiça, molhos, queijo, ravioli. No meu tinha iogurte, cream cheese, garrafas de chá ou suco que eu demorava dias pra conseguir abrir (o maior perrengue de morar sozinha e ser franga) e caixas e mais caixas de comida congelada que geravam olhar de julgamento até da moça do caixa do mercadinho.

Naomi fez uma amiga italiana que morava no mesmo prédio que a gente. Eu também tinha conhecido umas brasileiras, mas nossa proximidade durou pouco (meus amigos moravam no Queens ou em lados meio distantes de mim em Manhattan. Só gosto de quem mora longe nessa vida, pqp). A amiga da Naomi se chamava Francesca e era a definição do estilo pirigótica: roupas pretas mega curtas e justas, plataformas gigantes, meia arrastão, tatuagens e piercings incontáveis. Mesmo assim ela podia facilmente ser modelo, era alta, magríssima e bonita. E fofa.

Tanto que eu não me importava com o fato de ela aparecer no quarto quase toda noite. Antes de começar a morar fora, eu achava que ia ter que manter uma certa decência por estar vivendo com uma pessoa desconhecida. Mas o tempo foi passando e fui relaxando. Naomi me via todo dia com as minhas olheiras naturais, eu via ela de toalha, Francesca me via de óculos e cabelo desgrenhado, eu vi um peitinho de Francesca quando ela tava dormindo e ele escapou da blusa…e assim seguia a vida.

Em um fim de semana em especial, minha amiga, que mora em Orlando, foi me visitar em Nova York e ficou hospedada no meu quarto. Para o meu alívio, tanto ela quanto Naomi levaram a situação de boa. Tão de boa que Naomi até chamou a Francesca pra dormir lá também. Quatro meninas dormindo num quarto com apenas duas camas. Você pode imaginar que tenha dado merda, mas, com exceção de um pequeno chute que dei na cabeça da minha amiga enquanto dormia (desculpa, Lu) no final, todo mundo se deu bem. Dividimos o banheiro sem neuras, tivemos conversas leves, ninguém ficou puta uma com a outra (ou, se elas me xingaram, fizeram isso em italiano e eu não entendi nada mesmo, então beleza).

A intimidade, quando saudável, faz você largar mão de muita coisa, não se importar em dividir muita coisa. Só mantive meu edredom. Sou ladra de cobertor mesmo, sinto mais frio mesmo, não gosto de dividir mesmo. Mas o cobertor extra que eu tinha evitou bem qualquer possível conflito.

Meus últimos dias morando em Nova York foram perto do feriado de Thanksgiving, e minha última conversa com a Naomi foi sobre compras de Black Friday. Ela chegava de vez em quando com sacolas de marcas que eu nunca tinha ouvido falar, mas em geral a gente se entendia bem quando o assunto era compras. Mas, nos meus últimos dias lá, eu tive o quarto só pra mim. Naomi foi viajar, não sei pra onde (vide parágrafos em que falo sobre horários, sono e o fato de ela ser muito mais xóvem que eu). O que foi bom porque foi um drama minha arrumação de malas, um drama que ocupou o quarto todo. Mas queria ter me despedido dela propriamente. Ou pelo menos ter pegado o endereço dela em Roma. Oportunidade, né.

Se for pensar, hoje eu acho que não ficaria super animada com a ideia de ter uma roommate de novo em algum período da vida. Não é um problema se a pessoa é legal, mas prefiro ter meu espaço pra mim e dividir com quem eu escolher, quando eu escolher. Mas não me arrependo e recomendo muito essa experiência. No fundo, é bom se desprender das suas amarras sociais e saber que tem alguém lá se você esquecer a chave. Além de poder compartilhar com a outra pessoa o mundo que você tá vivendo e vice-versa. Italianos, por exemplo, acham super engraçado saber que cazzo é uma expressão comum em SP. Experimenta falar isso pra um deles um dia. 😉

Eu quando tinha o quarto só pra mim

PS: Não peguei o endereço dela em Roma, mas fiz dois bons amigos de Milão. Espero que em breve possa colocar em prática o projeto “virando uma bola na Itália”. A piada é ruim, mas quando virar realidade eu tenho certeza que vai ser ótimo.

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