Vivendo em sociedade e tentando não ser um estorvo

Eu ainda me considero uma pessoa “jovem” em relação a bastante coisa. Tenho 24 anos e ainda consigo, por exemplo, sair à noite em dia de semana e trabalhar no dia seguinte, ir em festivais de música por mais de um dia seguido, entender gírias da internet. Acho que aqueles papos de “ai, tô muito velha pra isso” não me atingem muito. Mas tem uma coisa em que eu percebo que estou cada vez mais velha, rabugenta e sem tolerância: a vida em sociedade.

Não sei se é porque eu trabalhei em casa por quase dois anos da minha vida e fiquei um pouco afastada do contato com pessoas. Sei que tem certas coisas que as pessoas fazem em público que me fazem questionar por que a gente tem aula de química no colégio mas não tem aula de “como se comportar quando tem mais gente ao redor”.

Por exemplo, uma dica para me deixar muito puta é parar em frente a uma escada. Se for na frente de escada rolante então, nossa. Eu geralmente sou uma pessoa bem contida e só amaldiçoo alguém em pensamento, mas juro, nunca estive tão perto de dar uma trombada, uma bronca em voz alta ou fazer a Nazaré e empurrar a pessoa sem querer escada abaixo. E tem muita, muita gente que faz isso.

O mesmo vale para parar na frente de uma fila SEM ESTAR NA FILA. Ninguém gosta de ficar esperando numa linha única para fazer alguma coisa, é um tempo que você perde no seu dia sendo quase 100% inútil. Aí vem um ser humano e para lá só porque quer, porque não tá percebendo que tá sendo um estorvo pra todo mundo. Nesse caso eu confesso que já bufei (que palavra horrível, “bufei”) pra uma senhora que estava na fila do kilo sem estar na fila propriamente. Só tava lá casualmente mexendo no celular. Ela saiu e melhorou o fluxo, mas minha vontade mesmo era de ter afogado a cabeça dela dentro do molho do macarrão. As vingadoras vão no trá.

Vou confessar que na maioria das vezes não passa pela minha cabeça que a pessoa que tá lá, claramente empatando sua tentativa de se locomover, resolver suas coisas e seguir sua vida, pode estar perdida, sem saber o que fazer. Tenho uma amiga que é do interior e que não se tocava que na cidade grande a gente anda rápido, não para no meio do caminho e muito menos na frente da escada, na saída do metrô.

Ninguém tá livre de se ver perdido em um lugar que não costuma frequentar ou de viver uma situação nova em um lugar público. Ainda assim, nada me tira da cabeça de que viver em sociedade é uma coisa básica que a gente deveria aprender desde muito cedo – às vezes não é tão difícil. Esperar as pessoas saírem do trem ou do elevador para só depois você entrar. Cara, é muito mais fácil esperar. Sério, raciocina um pouco. Precisava de anúncio do governo pra ensinar isso?? Mesmo assim, é muito comum ver gente de diferentes idades, diferentes poderes aquisitivos e diferentes histórias de vida fazendo a mesmíssima cagada.

Recentemente eu entrevistei a Glória Maria. Ela estava falando sobre racismo, e disse que o mundo está cada vez mais feio, mais burro, porque as pessoas se esquecem de olhar para o outro. Ficam tão entretidas fazendo selfies e postando em seus perfis nas redes sociais que não olham para as outras pessoas ao redor.

Eu concordo 100% – 200% se possível. É claro que a gente vive em uma sociedade caótica e que problemas e acidentes podem acontecer. Mas, pensando na regra e não na exceção, conviver com outras pessoas em lugares públicos sem ser desagradável me parece uma simples questão de entender que não estamos sozinhos no mundo e que, a princípio, todos merecem respeito. (Com a princípio eu quero dizer que gente como o Bolsonaro provavelmente não merece muito respeito, mas eu espero nunca encontrar com este senhor em lugar algum, então vamos seguir)

Se você se olha tanto no espelho, saiba que a sua bela figura ocupa espaço. Se você quer chegar rápido naquele encontro, não se esqueça que as outras pessoas também têm seus próprios compromissos. Se o papo com aquela pessoa no celular tá tão importante, não empaca no caminho – anda logo pra estar junto dela.

Eu falo essas coisas para o meu pai, que é 29 anos mais velho que eu, e ele dá risada. Eu fico indignada, como pode levar esse tipo de situação com tanto bom humor. Talvez varie entre cada um.

Lidar com pessoas não é fácil, especialmente com aquelas que a gente não pediu pra estar próximo mas é obrigado. Então vamos só tentar continuar vivendo e não nos atrapalhando mutuamente, por favor? Já tô velha pra essas coisas.

giphy

Anúncios

2 opiniões sobre “Vivendo em sociedade e tentando não ser um estorvo

  1. Nossa, esse post 100% me representa. Sou uma pessoa muito calma e paciente na maioria das situações, mas conviver com gente é algo que me tira do sério – ok que eu convivo com gente o tempo inteiro e isso talvez signifique que eu não sou tão paciente assim. Esses dias comentei no Twitter que se existisse habilitação pra ANDAR em espaços públicos a maioria das pessoas reprovaria no exame. É impressionante como as pessoas não sabem andar na rua, no shopping, lugares com grande fluxo de pessoas. Apesar de morar no interior, minha cidade tem porte grande e já exige um ritmo mais acelerado, mas a maioria das pessoas não entende isso. Coisa que me dá nos nervos é andar no shopping, o lugar com maior aglomeração de pessoas que não se dão conta do espaço que ocupam e acham que podem PARAR no meio do fluxo pra ver uma vitrine ainda que o lugar esteja lotado e o corredor esteja cheio de pessoas querendo passar. Entra e sai de ônibus, escadas rolantes (meu Deus as escadas rolantes), até andar no centro, tudo é uma tortura quando tem GENTE envolvida. Às vezes sou grossa mesmo, olho feio e esbarro de propósito, não tenho paciência e perco completamente a esportiva.
    Bom seria viver num mundo em que as pessoas tenham consciência que não estão sozinhas nele.
    beijos!
    (desculpa pelo textão revoltado, hahahah, é que realmente é um tópico sensível pra mim)

  2. Eu sou contra o porte de armas porque eu não garanto que se tivesse uma não ia usar com quem para no lado errado da escada rolante, com quem anda digitando no celular no metrô, com quem fica na porta do ônibus/metrô e não vai descer.

    Esses dias uma mulher estava na porta do coletivo, segurando na barra dos dois lados, travando totalmente a saída, eu pedi licença pra descer e ela me solta “mas eu só vou descer no metrô” (dali dois pontos). Ou seja, ela não tinha a menor noção de que existem outras pessoas no ônibus, na sociedade, no mundo, ela só pensa que ela tem 01 tarefa a executar e que essa é sua única preocupação na vida.

    Eu queria matar, eu queria agredi-la fisicamente com toda a minha força. Mas eu só gritei um “mas EU vou descer” e ela, lentamente, e com má vontade, soltou, uma das barras, deu um mísero passo pro lado e abriu um tantinho de caminho.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s