O que acontece quando você tem uma cara comum

Basicamente, o que acontece é que você vira a cara de todo mundo. Não é “a cara do Brasil”, “a cara da felicidade”, “a cara da descendência portuguesa, espanhola-judaica, indígena, africana e possivelmente francesa” (comprovada mesmo só a portuguesa, mas eu jogo uma francesa aí só pra sofisticar a genética e o parágrafo, merci). É meio cara de qualquer coisa, qualquer núcleo da novela. Comum aos olhos.

Tanto que uma das coisas que eu mais ouço na vida desde pequena, depois de “oi, tudo bem?” e “o que é isso no seu olho” são comparações. Quando eu tinha uns 4 ou 5 anos, minha mãe cortou meu cabelo tipo chanel. Na hora, os comentários foram de que eu fiquei a cara da Branca de Neve. Mas isso era bondade da minha família; na verdade eu fiquei mesmo a cara da Mafalda.

Daí eu cresci e as comparações ficaram cada vez mais absurdas. Quando eu tinha uns 13 anos, achavam que eu lembrava a Manuela do Monte, atriz. Eu queria parecer com ela  – ela era protagonista da temporada 2003 de Malhação e saiu numa linda capa da Capricho. Isso era vencer muito na vida, sério. Anos depois, com uns 17, surgiu a Selena Gomez e eu achei que podia ficar parecida com ela se fizesse o mesmo corte dela. É claro que a única coisa que a gente tem em comum meesmo é a cor do cabelo, porque o corte ficou 345% melhor nela do que em mim.

A comparação que as pessoas mais insistiram foi com a Isabelle Drummond. Eu até consigo ver algumas semelhanças, mas é porque, de tanto falarem, eu confesso que já passei valiosos minutos da vida reparando nas selfies dela no Instagram. É o nome dela que eu falaria se aparecesse naquele quadro “Com quem pareço” do “Altas Horas”, mas acho que a plateia riria de mim.

Agora que ela tá loira ninguém mais acha que a gente é parecida, mas, quando ela fazia a empreguete em “Cheias de Charme”, era constante. Quando ela aparecia na novela, minha mãe falava “olha você”. Minha mãe, cara. Uma colega no trabalho, também jornalista, chegou me falando que tava muito difícil entrevistar minha irmã. Primeiro eu olhei pros lados, tipo “tá falando comigo?”. Segundo eu joguei a real: “mas eu sou filha única”. Aí ela explicou a piada.

Eu só acho engraçado que eu conheci o atual namorado da Isabelle Drummond (gato) muitos anos atrás, nos bastidores de um show. Ele podia ter me achado daora naquela época, mas acho que não. Vida, devolva minhas fantasias.

Mas não é só com gente famosa que minha cara comum é parecida. Perdi a conta de quanta gente já me disse que eu sou a cara da irmã, da prima, da amiga, da mãe, da tia (sim, tia também), de qualquer pessoa. Uma colega de faculdade sempre que me encontrava ficava inconformada no tanto que eu era a cara da prima dela. E eu ficava sem saber o que falar, dando sorrisos sem graça nas longas viagens de elevador. Porque quando é gente conhecida você tem um parâmetro, mas quando não, que que cê faz? “Ah, vá. Deixa eu ver o Insta dela pra ver se é verdade. Hm, sei não, hein. Muito filtro aí”. Complicado.

Uma vez, no metrô, um menino e uma menina ficaram olhando pra mim durante uns 10 minutos. Então começaram a comentar, apontando mesmo, sem cerimônia (ah, a intimidade do transporte público). E comentaram: “Ela não é a cara da Larissa? É igual a Larissa”. Hoje eu me arrependo de não ter pedido o contato da Larissa. A gente podia se encontrar, descobrir que somos gêmeas idênticas separadas na maternidade e aparecer no Fantástico e na Sônia Abrão.

Lista completa de pessoas aleatórias com as quais já disseram que sou parecida: Isabelle Drummond, Selena Gomez, Katy Perry, Manuela do Monte, Chris Flores, Salma Hayek, Penélope Cruz (esse eu sei que é nada a ver mesmo, mas um amigo me disse com muita convicção e eu achei um dos melhores elogios da vida), Clarice Falcão, Regina Duarte e Magali. Eu não sei que tipo de entorpecentes as pessoas usaram quando me compararam a essas mulheres, mas devem ser ótimos.

Falando sério, fico lisonjeada, feliz que todas são bem sucedidas e tal, mas acho que só pareço mesmo com a Magali. Ela também é comumzona e só pensa em comida. Minha cara. (na verdade minha cara é essa, mas queria poder colocar a da Magali no RG)

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#FizSozinha 2 – Restaurante

Eu acredito que o único requisito que deve ser preenchido para que alguém consiga entrar em um restaurante sozinha e se sentir bem comendo sozinha é: gostar de comida. Se você gosta, ninguém tem o direito de atrapalhar o relacionamento sério de vocês (seu com os alimentos maravilhosos de deus).

Porém eu sei que na prática é um pouquinho mais difícil. Dá uma tensão de entrar num restaurante sozinha. Garçons estranham a situação, outras pessoas te julgam, você fica sem saber o que fazer lá, sem ninguém pra conversar. O segredo para não ligar para tudo isso é esquecer um pouco a insegurança e lembrar que provavelmente todo mundo ali tem nada a ver com a sua vida. E se tivessem também, a vida é sua, você come o que quiser, quando quiser e com quem quiser. Assim, meio grossa mesmo.

Outro ponto que dificulta o fato de ter “coragem” de comer sozinha é a falta de hábito. Eu sou acostumada a almoçar sozinha desde a adolescência, então não me incomodo. Pelo contrário, acho ótima a liberdade de poder comer onde eu quiser na hora que eu quiser, sem ficar dependendo todo dia das vontades do grupo. Mas quem sempre almoçou com outras pessoas pode ter essa questão como um problema. O que é compreensível, mas e se um dia não tiver ninguém do trabalho pra te acompanhar no almoço? E se estiver com muita vontade de comer num lugar, não tiver companhia e não puder ir em outro dia (tipo último dia do Restaurant Week, por exemplo)? A escolha é sua, mas a injustiça também é contra você mesma se se privar de comer por insegurança.

Eu vou insistir nesse ponto porque sério, gente, comida. Comida é uma das melhores coisas da vida, não deixa ela escapar assim.

Criar o hábito de ficar bem sozinha em um restaurante é um processo que pode ser concluído em etapas.

Etapa 1: escolha um lugar em que muita gente vá sozinha. Não precisa ser de fato um restaurante. Cafés tipo Starbucks são um bom começo. Inclusive tem internet, então você pode protagonizar essa cena confortavelmente enquanto degusta seu café e aprende a lidar com o fato de não estar acompanhada.

Quem nunca entrou na Starbucks só pra usar o wifi, sem intenção de pedir nada, né? Não? Só eu?

Etapa 2: escolha um lugar mais estilo fast-food. Muitos shoppings têm até um balcão com cadeiras para você se sentir mais acolhida nesse momento. Eu pelo menos penso “olha, pensaram em facilitar pra quem tá sozinho”. Na verdade eles pensaram em fazer esses lugares pra que os seres avulsos não ocupassem mesas que caberiam mais gente, mas ok. (É importante ressaltar que você pode sentar na mesa que quiser na praça de alimentação e me avisa se alguém tentar te tirar; essa situação pede um leve barraco).

Os lugares tipo fast-food são mais fáceis porque você pode simplesmente estar passando pelo lugar, ter vontade de parar e, sem depender de ninguém, pode comer sem demora (teoricamente, né, vide filas do McDonalds todo dia. Parece de graça, que isso). E não precisa ter que lidar com muita gente. É só escolher o que quer, fazer o pedido, pegar o pedido e ser feliz.

Se você é tímida, sabe que “não ter que lidar com muita gente” te poupa de muito stress. Se você é extrovertida e gosta de lidar com muita gente, é só escolher aquelas mesas comunitárias das pracinhas de food truck. Só tenha noção pra perceber se a pessoa ao lado não tá muito a fim de conversa. Respeite o relacionamento exclusivo dela com a comida.

Etapa 3: Depois de experiências em cafés, fast-food e o que mais você teve vontade de comer, pode confiar: você tá pronta pra encarar um restaurante sozinha. Não tenha medo de garçons, não tenha medo de julgamentos. Tenha coragem e tenha fome.

Dicas práticas para ir ao restaurante sozinha:

– Você chega e a hostess ou quem estiver de serviço vai perguntar pra quantos lugares é a mesa. Fale que é pra 1 mesmo. Falar que vai esperar alguém só para “não pegar mal” só vai ajudar a pegar bem mal mesmo quando ninguém aparecer. E sorria, mostre que está de boas com a situação. Não que você tenha que provar nada (não tem), mas sabe, me ajude a te ajudar 😉

– Em restaurantes que tendem a lotar, é mais fácil pegar uma mesa legal se você chega mais cedo ou mais tarde do horário de pico. Se chegar bem no rush, é possível que te mandem comer no bar (o que pode ser legal também, mas você é quem sabe o que prefere e pode negar) ou te deixem esperando mais porque você estará sozinha numa mesa que cabem 2, 4 pessoas. É meio escroto da parte do restaurante? É. Mas é o pensamento com foco no lucro. Tenha paciência ou chame o gerente se se sentir “desprezada”, você está no seu direito.

– Passou do tempo em que só quem levantava a mão pra chamar o garçom era o homem. Por favor, tenha força pra superar a vergonha e chamar a pessoa pra te atender. Pode até chamar de amigo, chefia, campeão, meu chapa ou qualquer alcunha que você tenha aprendido com seu pai/tio letra C.

– Também tá permitido levar algum livro, revista ou alguma coisa para se distrair. Mexer no celular também é ok. Aliás, essa é a única situação em que acho ok usar o celular à mesa sem que esteja acontecendo uma emergência.

– Você pode achar que estão todos te olhando, mas na verdade quem tá acompanhado muitas vezes nem presta tanta atenção assim no ambiente ao redor. Vire a situação ao seu favor e observe as pessoas no local. Sem julgar e sem encarar de um jeito creepy, só observando mesmo. É um exercício simples e possivelmente divertido.

– Uma dica meio boba (que eu vi em uma série de TV, confesso) é agir como se pertencesse ao lugar. Como você se sente quando está no seu restaurante favorito ou num restaurante que frequenta há anos? Bem, à vontade, né? Então. Se solta, não fica tensa, se concentre em aproveitar. Quando menos perceber, vai estar aproveitando de verdade e não dando a mínima pro fato de estar sozinha.

Como eu falei no #FizSozinha anterior e vou continuar falando, o que importa é curtir sua própria companhia. Garanto que comer consigo mesma é mais legal do que comer com aquele amigo que faz piada escatológica no almoço da firma.

Comida ❤

#FizSozinha 1- Cinema

Não que eu tenha muitas especialidades na vida. Além de ouvir as conversas dos outros sem que eles percebam e imitar sotaque carioca, não acho que tenho muitos outros talentos naturais. Mas aprendi com a própria vida e com alguns obstáculos do cotidiano a desenvolver um outro dom: o de me virar (modestamente muito bem) sozinha.

Ficar sozinha ou fazer certas coisas sozinha nunca foi uma opção pra mim, pode ser que também não seja para você em muitas situações. Sou filha única, neta única, sobrinha única e sempre tive poucos amigos (nem sempre bons). É muito fácil se deprimir nesse caso, se sentindo solitária quando não tem ninguém pra viajar junto no fim do ano ou pra ficar horas do seu lado na fila de uma sessão de autógrafos. Mas, se esforçando um pouquinho, também é fácil ver que não é preciso deixar de fazer o que te faz feliz só porque não tem companhia. Cê já deve saber aqueles papos de “antes só do que mal acompanhada” e tal, mas vou contar outro: “só” pode ser sensacional. Eu juro.

A questão que preciso esclarecer é de que não é que é ruim ter gente querida ao seu lado, pelo contrário. É maravilhoso, eu sei, meu feed do Instagram sabe. O que eu acho é que a sua, a minha, a nossa felicidade não deve depender (ênfase no de-pen-der) de ninguém. Não deve precisar de ninguém pra existir. Se ainda não deu pra entender, deixo aqui minha contribuição de auto-ajuda com duas frases clichês porém muito verdadeiras:

1)Não busque alguém que te complete, busque alguém que te transborde.

2) Se você não consegue ficar sozinho, você sempre estará solitário

(Fim da sessão auto-ajuda. Me aguarde em um futuro Ted Talk)

Por isso, resolvi começar aqui a tag #FizSozinha, sobre várias coisas que a gente pensa que é chato fazer sozinha, mas a verdade é que chato mesmo é não fazer.

A primeira delas é ir ao cinema. Existe um certo preconceito em relação a ir ao cinema sozinha. Se você é mulher e jovem, existe também um estranhamento (ah, mas como assim não tem ninguém pra ir ao cinema com você?), um receio (mas não tem ninguém pra te acompanhar?) e um machismo (mas como uma menina como você não tem nenhum gatinho pra te levar ao cinema?). Perceba que os comentários são praticamente os mesmos, mas esboçando ideias erradas diferentes. Que delícia viver.

Geralmente, as pessoas só querem te proteger – esse sintoma acomete principalmente mães e avós. Dê ouvidos a elas, sim, mas não se contagie com o terrorismo que podem tentar fazer com você. Até porque, está na hora de você saber se proteger o quanto for possível (mais dicas sobre isso abaixo). E até porque [2], quando um cara se masturbou do meu lado no cinema, eu não estava sozinha. Pois é. Sim, foi horrível, mas não quero me demorar nisso. Foi só pra exemplificar que estar acompanhada não te deixa imune na vida.

Voltando ao assunto principal, em geral, acho seguro dizer que cinema não é dos lugares mais perigosos. Talvez você venha a enfrentar outros problemas, no entanto. Certa vez, consegui uma segunda-feira de folga e aproveitei pra ir ao cinema ver um filme que estava indicado ao Oscar. Eu tinha passado um tempo na Polícia Federal nesse dia pra pegar passaporte, e tava meio atrasada e acabada visualmente, no mesmo nível em que estava morrendo de fome. Comprei ingresso. Comprei também pipoca e refrigerante. Na hora de mostrar o ingresso pra funcionária, uma surpresa: não havia mãos suficientes. Segurei a pipoca meio com o cotovelo, deixei cair algumas no chão, me embolei toda, criei uma fila, a moça me olhava com um misto de desprezo e pena. Consegui entrar na sala, que estava com bem pouca gente. Achei que tinha conseguido achar uma poltrona vazia que me agradasse, mas na verdade sentei em cima da bolsa de uma mulher. Levantei meio sem graça, deixei cair mais umas pipocas, peguei uma outra poltrona um pouco mais pra cima. Sentei, deixei cair minha bolsa, deixei cair o canudo do refrigerante. Enquanto fui pegar os dois, deixei cair mais algumas pipocas. Provavelmente provoquei raiva da moça da limpeza depois.

O que eu não disse nesse parágrafo foi que o filme foi ótimo e que não só não me arrependi como me senti muito bem e repeti a ida ao cinema sozinha várias outras vezes. Inclusive nos Estados Unidos, o que gerou uma das maiores e mais legais ironias da minha vida (saiba mais nesse texto aqui. Mas leia até o final pra chegar nessa parte ; )

Ir ao cinema sozinha não precisa ser difícil, não precisa ser deprimente, não precisa ser chato. Você não baixa séries e filmes pelo ~Cine Torrent~? Então. Não vou dizer que é a mesma coisa, mas você já sabe como é a experiência de ver um filme sozinha. Não deixe de ver algum que você queira muito só porque não tem ninguém com a mesma vontade e disponibilidade. Quando os créditos estiverem passando, a sensação de independência – e de alívio por não ter se irritado com aquele amigo que sempre fala no meio do filme – vão fazer todo o preconceito, o estranhamento e o machismo parecerem totalmente sem sentido (como de fato são).

Dicas práticas para ir ao cinema sozinha:

– Não seja tchonga como eu e pense na logística. Mostre o ingresso antes de comprar a pipoca, por exemplo.

– As poltronas nos extremos das fileiras são mais práticas se você quiser levantar para ir ao banheiro sem incomodar ninguém ou se quiser evitar que algum creepy sente ao seu lado (se quiser fazer isso do outro lado também e o cinema não estiver lotadíssississimo, coloque sua bolsa e diga que está guardando lugar para um amigo se alguém perguntar).

– Se mesmo assim alguém te encher o saco, mude de lugar (sentar perto de famílias pode funcionar se o caso for simples) ou fale com um funcionário do cinema. Assédio não é aceitável em hipótese alguma e não é culpa sua em hipótese alguma também.

– Se chorar durante o filme, dê uma olhadinha no espelho pra ver se está tudo ok com seu rosto. Uma vez, fui ao cinema (com duas amigas, vale ressaltar) e chorei. Bastante. Limpei as lágrimas e achei que tava tudo bem. Só muito tempo depois, quando já estava num restaurante, fui reparar que meu rosto estava meio preto, parecia que tinha passado graxa. Foi o lápis de olho que escorreu e ninguém me avisou. (Y)

– Aproveite o filme! Se sentir falta de comentar com alguém, as redes sociais estão aí pra isso (além das mais conhecidas, tem também o Filmow, especialmente sobre cinema).

O mais importante de tudo que for fazer sozinha é gostar da sua companhia. Se você não se sente bem quando está só consigo mesmo e não consegue ter prazer em nada que faça sozinho, pense com carinho sobre isso. Não só é possível como também pode ser ótimo. Você vai ver =)

Ir ao cinema sozinha não é tão emo assim, prometo

48 estágios de ir a um show sozinha

1. Você decide ir ao show. Ir sozinha geralmente não é uma opção. Quer dizer, é. Opção dos outros que não estão a fim de ir também ou preferem ir em outro setor (mais barato) longe de você.

2. Você comunica que vai ao show. Sua mãe se preocupa. Sua avó nem fica sabendo que não vai ter ninguém junto, senão já estaria acendendo mil velas.

3. Você se prepara bem antes – endereço, ingresso, documentos e bateria do celular são checados mil vezes. Melhor prevenir do que ter que pedir ajuda a um estranho ou chorar largada na rua.

4. Você sai de casa. Sente uma leve invejinha ao ver gente que também tá indo pro show acompanhada. Fazer o que.

5. É melhor não divulgar pro mundo todo que tá sozinha. Quando o taxista fala “mas uma menina tão nova como você vai nesse show com quem?”, você sente que precisa inventar que tem amigos te esperando na fila.

6. Na verdade não tem ninguém esperando. O que tem é uma certa expectativa na sua cabeça de fazer amizades na fila.

7. Adolescentes chegam e ficam atrás de você. Estão com o pai. Você se lembra de quando seu pai ou sua mãe também achavam melhor te acompanhar num estádio. Hoje eles não iriam nem se você pagasse o ingresso e a cerveja.

8. Você tenta sorrir e ser simpática com a adolescente que usa faixa com o nome da banda na cabeça. Ela até te oferece água.

9. Você é tímida e não puxa assunto, ela também não. Vocês nunca mais se encontram depois da fila.

10. Você passa pela revista e pode escolher seu lugar ao sol. Vantagem: a escolha é só sua. Não precisa se preocupar com a vontade da amiga que quer se espremer numa grade onde claramente não tem mais espaço ou com o amigo que quer ficar a 1km do palco porque não suporta multidão.

11. Você para em um pedaço livre da grade. A menina ao seu lado também parece estar sozinha. Legal.

12. A menina ao seu lado na verdade tem uma amiga em outro ponto do estádio e pede para você guardar o lugar dela. Nunca mais volta.

13. Ponto positivo de ficar na grade de um show: seus ídolos estarão bem ali na sua frente. Ponto negativo de ficar na grade de um show: você provavelmente não poderá sair dali (ou se mexer) até ele acabar.

14. Para conseguir sentar um pouco, você tem que se espremer entre o grupo de amigos de um lado e o casal do outro. Ambos devem te achar um estorvo ali. Você obviamente não está nem aí.

15. Você finalmente decide comprar comida e dá graças a Deus pelos ambulantes que passam por perto.

16. Talvez você nem tenha comprado aquele hambúrguer por injustos R$ 14 por estar com muita fome. Talvez você tenha comprado só pra colocar alguma coisa na barriga e não correr o risco de passar mal sozinha no meio do show.

17. Se você acha que esperar horas para sua banda entrar no palco é chato, experimente fazer isso sozinha e sem 3G.

18. Se você acha que esperar horas para sua banda entrar no palco é chato, experimente fazer isso sozinha, sem 3G, debaixo de chuva e com medo de raios.

19. Você começa achar que é possível e é uma boa ideia bater papo com os seguranças e funcionários de apoio perto do palco. Até seria mesmo, se eles não conversassem apenas entre si e não se compadecessem com sua situação.

20. Quando começa a chover, você tenta abrir a capa de chuva nova.

21. Você esquece que é desajeitada e devia ter treinado isso em casa.

22. Você abre a capa toda errada, esbarra nas outras pessoas, tem dificuldade pra vestir e ainda assim acaba se molhando um pouco.

23. Não tem nenhum amigo pra te ajudar nessa situação humilhante.

24. Por outro lado, não tem nenhum colega ou semi conhecido que não só não te ajudaria como também meio que te julgaria nesta situação humilhante. Você relembra que as pessoas ao lado não te conhecem na vida e age normalmente.

25. O tempo passa e o local enche. Mas você tá sozinha e com seu lugar garantido, não precisa se preocupar em encontrar amigos que foram comprar cigarro e nunca mais voltaram.

26. O show finalmente começa. Sua banda preferida toca as músicas que você ama. Você canta, dança e fica com o cabelo todo desgrenhado como se ninguém estivesse olhando (porque provavelmente ninguém tá mesmo).

27. O vocalista é maravilhoso demais, você pensa. Não tem ninguém ao lado que possa concordar com você e te abraçar nas melhores músicas. (Ninguém por quem você sinta um afeto, quero dizer)

28. A banda chega bem pertinho. Você tá com um sorriso tão bobo no rosto que os guitarristas percebem e até sorriem pra você de volta. Não tem ninguém pra testemunhar esse momento (mas eu juro por Deus, aconteceu).

29. A emoção de ver sua banda preferida depois de anos não muda nada com o fato de você estar sozinha. Você sempre curtiu as músicas sozinha, mesmo. É certamente o melhor show da sua vida, o melhor dia do seu ano.

30. O show termina. Você sai do estádio, conta tudo pra sua família, flooda a timeline das redes sociais com fotos, vídeos e depoimentos sobre o que você viu. É a única forma de compartilhar com o mundo esse momento. Sorry not sorry.

31. Agora digamos que você decida ir sozinha a um show no maior estádio do Brasil numa cidade que você nem conhece tão bem assim. 8 entre 10 pessoas te chamaram de louca (as outras duas só pensaram).

32. Você acaba descobrindo outras pessoas que também vão ao show, mas em setores diferentes. Elas vão com você até o estádio (o que já é de grande ajuda), mas vocês se separam nos portões de entrada.

33. Você entra no setor das cadeiras e nem se preocupa em achar um lugar pra grupo – qualquer cadeira individual ou espacinho já serve.

34. O problema é que tá calor. Tipo 39º C. Você começa a achar que tá passando mal e entra em leve pânico pensando que pode desmaiar no Maracanã sem ter ninguém conhecido pra ajudar.

35. Não queria, mas acha melhor levantar do lugar e sair atrás de comida e (mais) água. Acha que tudo bem deixar sua cadeira porque né, uma cadeira só, no canto, tem mais um monte, ninguém vai pegar.

36. Você volta e percebe que pegaram sua cadeira.

37. Não tem problema, deu pra pegar outra cadeira na mesma fileira.

38. Mais uma vez, as horas demoram absurdamente pra passar, mas no fundo você agradece por não ter ninguém enchendo o saco do seu lado (muitas vezes são os nossos próprios acompanhantes que forçam a amizade).

39. O show começa, o show passa e é mais uma vez maravilhoso. Você se orgulha muito de si mesma por ter tomado a decisão de ir e ter tido a oportunidade de participar desse momento tão sensacional.

40. Você não sabe como vai ser a hora de ir embora. Não consegue achar um taxi livre. Começa a bater um desespero.

41. A pessoa que foi até lá com você avisa que o metrô continua funcionando e você decide encarar a muvuca na estação, mesmo sem saber se vai dar pra entrar, pra comprar bilhete, pra entrar no trem e pra chegar no hostel inteira.

42. Uma hora, cinquenta e cinco minutos e muitas baratas na rua depois, você finalmente chega.

43. Seus amigos estão no quarto, dormindo. Se irritam quando você chega, elétrica, e acende a luz. Mesmo se estivessem acordados, não se interessariam pela história que você tem pra contar.

44. Mas tudo bem. Nesse ponto, você já contou como foi pra todo mundo no Instagram e até trocou uma ideia com as meninas do outro quarto.

45. No fim, sua experiência já não é mais tão exclusivamente sua.

46. No fim, tudo tem seus pontos positivos e negativos, mas o que vale mesmo é a experiência.

47. Se para presenciar um espetáculo musical ao vivo você tiver que ir sozinha, com seu eu lírico, acompanhada de 30 pessoas, atrasada, muito adiantada, de muleta, de cadeira de rodas, com dor de barriga, sem dinheiro, sem dignidade, não importa. Vá. De qualquer jeito, vá.

48. Música é uma das coisas mais incríveis, libertadoras e maravilhosas do mundo. Vá.

Dave resumindo a sensação de ir a dois shows do Foo Fighters num mesmo fim de semana ❤

Só não divido meu edredom – e outros detalhes sobre ter uma roommate pela primeira vez

O problema de ir morar nos Estados Unidos é que a gente já viu tanto filme americano que fica achando que já vai chegar lá manjando tudo. Daí a realidade te mostra que, ainda que muitas coisas sejam familiares, cada um tem suas próprias experiências nessa vida.

Ter uma roommate, por exemplo. A ideia de morar fora já é romantizada. A ideia de morar fora e ter uma roommate de outro país é ainda mais romantizada. A ideia de morar fora e ter uma roommate de outro país sendo que sou filha única e nunca dividi quarto com ninguém por mais de cinco dias é não só romantizada como também aterrorizante.

Agora vamos à parte em que começa o “sua experiência é só sua”. Cheguei em Nova York em um dia ensolarado e quente de setembro (parte feliz). Descobri que teria que esperar sete horas pra fazer o check in e entrar no meu quarto (parte “fazer o que”). Quando finalmente fiz o check in, tinha outras meninas entrando no prédio junto comigo. Mas, apesar da minha empolgação, abri a porta e…não tinha roommate nenhuma. Tive que fazer compras comunitárias de casa (tipo saboneteira, cortina de banheiro, vassoura) tudo sozinha. Essa definitivamente é a parte triste, porque realmente acho que poucas pessoas ficariam felizes ao gastar dinheiro com prato de papelão no primeiro dia em uma cidade nova depois de mais de 24h sem dormir.

Nos primeiros momentos sem roommate, sem amigos e sem família, confesso que bateu uma solidão. Mas durou uns dois dias. Depois de conhecer gente nova, me ocupar com as aulas e o trabalho e descobrir o maravilhoso mundo das farmácias que vendem de palitos de cenoura a meias, tava tudo bem. Inclusive a cama desocupada do meu quarto estava sendo muito útil pra eu deixar várias coisas que tinha tirado da minha mala e tava com preguiça de guardar direito. Minha personalidade introspectiva já tinha esquecido que podia ser legal ter uma nova amiga nessas circunstâncias e a verdade é que poucas coisas superam a liberdade e a felicidade de não precisar usar calças e beber tudo do gargalo.

Até que, uma semana depois, avisaram que a roommate ia chegar. Esperei uma tarde toda e ela não chegou. Saí pra encontrar amigos e deixei um bilhetinho fofo avisando. Quando cheguei, vi as malas, mas nada da menina. Comecei a achar que ela tava de zoeira.

Horas depois, conheci a Naomi. Naomi era mais morena que eu, mais baixinha que eu e com o cabelo mais enroladinho que o meu. Ou seja, a olho nu, mais brasileira que eu. Mas Naomi era italiana. Já achei legal, sempre quis conhecer a Itália. Inclusive falo a mesma piada pra todo italiano que eu conheço: quando eu for pra lá, vou voltar pro Brasil rolando de tanta comida, só dar um empurrãozinho e minha circunferência rolará rapidinho. Eles nunca riram muito, acho que não é muito boa.

De cara, descobri que eu e Naomi não tínhamos muito em comum. Primeiro, ela era mais velha: tinha 37 anos e eu 22 (guardem essa informação, ela se mostrará contraditória daqui a pouco). Segundo, o inglês de Naomi não era muito bom (ela achava que era mais fácil de entender o inglês na Inglaterra do que nos EUA. Não sei como). Terceiro, Naomi dormia. Muito. Eu entendo isso bem, um dos meus grandes talentos na vida é dormir, sem preconceitos – até sonhava dormindo nas aulas de matemática. Mas sei lá, em Nova York eu dormia umas 5h por dia e já achava perda de tempo. Mas Naomi dormia dias inteiros. Sério.

Apesar disso, outra coisa diferente entre nós eram os horários. Naomi era 15 anos mais velha, mas claramente eu era a idosa do quarto. Nunca esquecerei o sábado em que eu tava saindo de casa 9h da manhã e ela tava chegando da balada. E as noites de dias de semana em que eu tava de pijama de flanela, me preparando pra trabalhar, e ela tava de meia fina e saltão pronta pra enfrentar um frio da porra em alguma balada ostentação. Mas um dos dias mais legais foi quando cheguei de uma festa numa quarta-feira às 4:30h e, ainda na empolgação, fiquei dançando “New Romantics” da Taylor Swift como se não tivesse que acordar cedo no dia seguinte.

Naomi, é claro, não tinha chegado ainda. Saí de casa perto das oito e nem vi quando ela chegou.

Nossos horários de estudo também não batiam, o que fazia com que a gente só se desse tchau de manhã e oi umas 23h, quando ela chegava da cozinha do prédio. Ah é, Naomi cozinhava. O lado dela da geladeira tinha linguiça, molhos, queijo, ravioli. No meu tinha iogurte, cream cheese, garrafas de chá ou suco que eu demorava dias pra conseguir abrir (o maior perrengue de morar sozinha e ser franga) e caixas e mais caixas de comida congelada que geravam olhar de julgamento até da moça do caixa do mercadinho.

Naomi fez uma amiga italiana que morava no mesmo prédio que a gente. Eu também tinha conhecido umas brasileiras, mas nossa proximidade durou pouco (meus amigos moravam no Queens ou em lados meio distantes de mim em Manhattan. Só gosto de quem mora longe nessa vida, pqp). A amiga da Naomi se chamava Francesca e era a definição do estilo pirigótica: roupas pretas mega curtas e justas, plataformas gigantes, meia arrastão, tatuagens e piercings incontáveis. Mesmo assim ela podia facilmente ser modelo, era alta, magríssima e bonita. E fofa.

Tanto que eu não me importava com o fato de ela aparecer no quarto quase toda noite. Antes de começar a morar fora, eu achava que ia ter que manter uma certa decência por estar vivendo com uma pessoa desconhecida. Mas o tempo foi passando e fui relaxando. Naomi me via todo dia com as minhas olheiras naturais, eu via ela de toalha, Francesca me via de óculos e cabelo desgrenhado, eu vi um peitinho de Francesca quando ela tava dormindo e ele escapou da blusa…e assim seguia a vida.

Em um fim de semana em especial, minha amiga, que mora em Orlando, foi me visitar em Nova York e ficou hospedada no meu quarto. Para o meu alívio, tanto ela quanto Naomi levaram a situação de boa. Tão de boa que Naomi até chamou a Francesca pra dormir lá também. Quatro meninas dormindo num quarto com apenas duas camas. Você pode imaginar que tenha dado merda, mas, com exceção de um pequeno chute que dei na cabeça da minha amiga enquanto dormia (desculpa, Lu) no final, todo mundo se deu bem. Dividimos o banheiro sem neuras, tivemos conversas leves, ninguém ficou puta uma com a outra (ou, se elas me xingaram, fizeram isso em italiano e eu não entendi nada mesmo, então beleza).

A intimidade, quando saudável, faz você largar mão de muita coisa, não se importar em dividir muita coisa. Só mantive meu edredom. Sou ladra de cobertor mesmo, sinto mais frio mesmo, não gosto de dividir mesmo. Mas o cobertor extra que eu tinha evitou bem qualquer possível conflito.

Meus últimos dias morando em Nova York foram perto do feriado de Thanksgiving, e minha última conversa com a Naomi foi sobre compras de Black Friday. Ela chegava de vez em quando com sacolas de marcas que eu nunca tinha ouvido falar, mas em geral a gente se entendia bem quando o assunto era compras. Mas, nos meus últimos dias lá, eu tive o quarto só pra mim. Naomi foi viajar, não sei pra onde (vide parágrafos em que falo sobre horários, sono e o fato de ela ser muito mais xóvem que eu). O que foi bom porque foi um drama minha arrumação de malas, um drama que ocupou o quarto todo. Mas queria ter me despedido dela propriamente. Ou pelo menos ter pegado o endereço dela em Roma. Oportunidade, né.

Se for pensar, hoje eu acho que não ficaria super animada com a ideia de ter uma roommate de novo em algum período da vida. Não é um problema se a pessoa é legal, mas prefiro ter meu espaço pra mim e dividir com quem eu escolher, quando eu escolher. Mas não me arrependo e recomendo muito essa experiência. No fundo, é bom se desprender das suas amarras sociais e saber que tem alguém lá se você esquecer a chave. Além de poder compartilhar com a outra pessoa o mundo que você tá vivendo e vice-versa. Italianos, por exemplo, acham super engraçado saber que cazzo é uma expressão comum em SP. Experimenta falar isso pra um deles um dia. 😉

Eu quando tinha o quarto só pra mim

PS: Não peguei o endereço dela em Roma, mas fiz dois bons amigos de Milão. Espero que em breve possa colocar em prática o projeto “virando uma bola na Itália”. A piada é ruim, mas quando virar realidade eu tenho certeza que vai ser ótimo.

Sou tão estranha que tenho uma pinta no olho

Quando eu conheço uma pessoa nova, eu não sei o que ela vai achar de mim. Não sei se ela vai prestar atenção no que eu falo. Mas sei que ela está pensando: “o que é isso no seu olho?”.

Desde criança essa é a pergunta que eu mais ouço, possivelmente mais do que “oi, tudo bem?”. O pior é que geralmente eu nem me lembro que tem alguma coisa no meu olho. Até alguém me perguntar.

Mas vamos lá, vou explicar rapidamente. Quando eu era bem pequena, apareceu uma mancha no meu olho. Não sei exatamente quando, mas, desde que aprendi a me olhar no espelho, sei que ela tá por aqui. Costumo dizer que é de nascença só pra encurtar essa parte, mas na verdade não é, nem eu nem minha mãe sabemos direito quando surgiu. Fui em vários médicos, fiz vários exames, só pra ouvir a mesma coisa de todos: não é nada. É só uma veia (?) que estourou e ficou uma manchinha de sangue. Na prática, é como uma dessas pintas inofensivas que a gente tem na pele. Tipo sarda. Só que no olho.

Pra mim nunca foi nada mesmo. Nunca me incomodou, não atrapalha a minha visão (ao contrário dos 3 graus de miopia), não dói, não remete a nenhum trauma do passado. A única hora em que reparo nela é quando, em algumas fotos, um olho meu parece mais “vivo” do que o outro, porque a íris preta se mistura com a mancha e o branco do olho some e dá pra ver que tem alguma coisa meio errada. Em outras palavras, não é todo filtro do Instagram que funciona, mas a gente aprende a viver com isso, né.

Pros outros, no entanto, sempre pareceu uma coisa muito maior. Quando minha melhor amiga me conheceu, no pátio do colégio, a primeira coisa que ela me perguntou foi “o que você tem no olho?”. Ano passado, conheci o namorado dela, americano. Depois de alguns minutos, ele, meio sem graça, perguntou se podia me fazer uma pergunta meio indiscreta. Imaginei que fosse algo muito mais pesado, mas foi “o que você tem no olho?” também. E foi então que percebi que eles devem ser almas gêmeas mesmo.

Aliás, a pinta no olho já facilitou bastante na hora de saber se alguém tá a fim de mim de verdade. Porque assim, eu realmente não me incomodo com ela na minha cara, mas também sei que não é um super chamativo, super atraente, etc, pelo contrário. Falar “olha, você tem uma pinta no olho!” é comum, não assumo nada sobre esta frase. Mas falar “que bonita sua pinta no olho” geralmente significa hmmmmm. Realidades.

Mas nem todo mundo é gentil e sensível ao falar da corpo alheio, como a internet mostra todos os dias. Pessoalmente também tem muita gente sem noção. Uma vez, fui numa livraria depois do trabalho e imagino que minha cara deveria estar meio acabada, mas não tanto pra moça do caixa me perguntar, horrorizada: “o que fizeram com você?”. Fiquei alguns segundos sem saber do que ela tava falando e só consegui responder “O que?”. Aí ela apontou pro olho e eu expliquei, dando risada. Já chegaram a fazer algumas piadinhas sobre isso também, tipo “levou um soco?”. Eu respondo da mesma forma, mas com um sorrisinho falso pra deixar a pessoa sem graça mesmo. Porque de piada ruim o Zorra Total já tá cheio, não sou obrigada.

Já me perguntaram também por que eu não faço uma cirurgia pra tirar a mancha. Eu poderia, minha oftalmologista disse que quando eu quiser é só fazer. Mas tem dois problemas:

1) Morro de medo de cirurgia. Imagina cirurgia no olho, que terror. Evito ao máximo, e, se eu fosse fazer, primeiro ia consertar esse nariz aqui, bem mais errado.

2) No fundo, eu gosto de ter uma mancha no olho. Já sou bem regular em quase tudo na vida, com aparência comum, altura média, profissional sem muito destaque, estilo básico. Não me entenda mal, não odeio ser assim, acho até prático às vezes. Só sinto que não consegui ter uma marca registrada na vida (ainda, talvez). Mas no olho eu já tenho. Sou tão estranha que tenho uma pinta no olho.

Essa é minha pinta no olho. E essa é minha cara de bunda, olar

Essa é minha pinta no olho. E essa é minha cara de bunda, olar

Flanêurette

Sabe quando você é criança e sua mãe te diz pra não falar com estranhos? Ou quando você acabou de tirar sua carteira de motorista e seus pais falam pra você não ir muito longe? Ou quando seus professores ou chefes te dizem para ter foco e não desviar do objetivo? Pois é, eu fui uma boa menina e obedeci a todos eles durante toda minha vida. Mas não adiantou. Há alguns dias, eu me vi falando com estranhos (bem estranhos, aliás), consideravelmente longe de todo mundo que eu conheço e bem distraída. Basicamente, eu estava perdida.

Era uma manhã de domingo, meu primeiro mês em Nova York. Manhãs de domingo são a melhor parte da semana para ser flanêur (a expressão flanêur quer dizer, por alto, um explorador urbano, alguém que gosta de andar pelas ruas e sentir a cidade). Não é um dia de semana, quando as ruas estão cheias e as pessoas não estão sempre em seus melhores humores. Também não é sábado, quando dá para sentir a ansiedade das pessoas para aproveitar o dia e curtir o fim de semana ao máximo, como se a segunda-feira fosse um monstro. Nas manhãs de domingo, esse desejo geralmente se transforma em sono ou brunch, então as ruas são quase todas suas.

Era uma ensolarada e fria manhã de domingo. Quer dizer, um New Yorker deve ter achado que estava ok. Mas, como sul americana, eu estava congelando. 8º C mais vento em um país tropical é considerado inverno pesado. Eu acho que a última vez que eu tinha usado o casaco e o cachecol que usei nesse dia havia sido há quatro anos. Em 2014, minha cidade só teve “inverno” por uma semana ou duas, e foi tipo 11ºC. É.

Era uma ensolarada, fria manhã de domingo e eu tinha decidido que não iria passar o dia no meu bairro. Eu estava morando na parte mais ao norte da cidade (Uptown) desde que havia chegado, mas amo a parte mais ao sul de Manhattan (Downtown) e seu charme antigo. Eu gosto do fato de que ela não é sempre bonita  – ou bonita de um jeito óbvio tipo a 5ª Avenida ou Park Avenue – mas tem muito mais personalidade (seria clichê dizer que tem estilo, porque até aí a cidade toda tem, então acho que “personalidade” cai melhor).

Encantada por essa personalidade charmosa, eu pensei em ir para os “Villages”, primeiro o East e depois o West. Eu estava lendo um livro da Suze Rotolo chamado “A Freewheelin’ Time” (eu ainda tô lendo esse livro. Eu costumo ler dois ou três livros ao mesmo tempo. Não é de se estranhar que eu me distraia). Na introdução, ela fala sobre sua relação com o Greenwich Village. Eu não me sinto exatamente da mesma forma, mas acho que conheço o sentimento.

Ela escreveu: “Era para o Greenwich Village que as pessoas como eu iam – pessoas que sabiam que suas almas não pertenciam ao lugar de onde elas vieram. Eu fui atraída pelo Village com sua história de boemia – onde os escritores que eu estava lendo e os artistas que eu admirava tinham vivido ou passado. Os espíritos deles mostraram o caminho e nomearam o local. Eu entrei no metrô”.

Eu também. Meu plano era ir à Hester Street Fair, uma feirinha com artesanato, comida, essas coisas que eu amo e vou em qualquer uma, em qualquer lugar. Eu poderia pegar o trem da linha 6, descer na Rua 59 com a Lexington e pegar o trem da linha F na Rua 63 em direção a Downtown.

Teoricamente eu poderia. Fins de semana são bons para “carpe diem” e todas essas coisas, mas às vezes é difícil “carpe fds” no metrô de Nova York. Na minha curta experiência, eu já havia percebido que os trens demoram mais tempo para chegar nos sábados e domingos e oh, às vezes eles simplesmente não chegam. Não havia trens sentido Downtown na estação da Rua 63, então eu voltei para a linha 6 e desci na estação da Rua Bleecker.

Eu deveria ter ficado bem e deveria ter encontrado meu caminho lá. Mas, tentando ser uma flanêur de verdade, decidi ~deixar a vida me levar~. Poderia pegar os trens das linhas D e F para chegar onde eu queria; pegaria o primeiro que aparecesse. Foi o D.

Para minha surpresa, Grand Station, minha parada final, estava lotada. Tipo, t~~ao lotada que tava difícil de andar lá pelas 11h. Por ser de uma cidade grande, eu não tenho medo de multidões. Me sinto mais segura no meio de uma multidão do que em um lugar super vazio. Mas, de repente, eu saí da estação e vi uma Rua Hester quase vazia. Eu não sabia que estava em Chinatown. E, aparentemente, eu era a única em Chinatown naquela manhã de domingo. A apenas um quarteirão de distância, não tinha mais ninguém na rua. Só eu.

Chinatown não é uma vizinhança muito amigável. Pelo menos nas ruas em que eu andei, era tudo majoritariamente marrom e cinza, a arquitetura não tinha nada de especial, a decoração muito menos e o lixo nas calçadas não eram exatamente um convite a um passeio. Não havia cachorros ou pais com carrinhos de bebê para dar aquele conceito de família. Só tinha eu mesmo (e algumas pombas).

Comecei a ficar angustiada,. Não havia carros passando, certamente não seria fácil conseguir um taxi pra sair dali se fosse necessário. Todas as lojas estavam fechadas e eu nem sabia que tipo de lojas eram aquelas porque tudo estava escrito numa língua que eu não entendo. O sentimento de desamparo era enorme. Eu tinha 3G, eu tinha Google Maps, mas mesmo assim eu pensava:

1) Eu obviamente não pertenço a esse lugar

2) Eles (os moradores e comerciantes) obviamente não querem que eu pertença a este lugar, porque eu nem os vejo em um domingo de manhã e nem consigo decifrar o que eles estão vendendo nas lojas

3) Por que eu não esperei a bosta do trem da linha F????

Andei mais dois quarteirões e cheguei no Seward Park, onde o evento aconteceria. Mas não tinha nenhuma Hester Street Fair ali. Nada. Mais uma vez, não tinha ninguém por perto, o que parecia muito estranho. Até agora eu não sei se confundi o dia, a hora, o mês, o local ou todos os anteriores. Parabéns pra mim, flanêur do ano.

Mas, ao mesmo tempo, a situação toda pareceu tão sem sentido que eu me senti um pouco aliviada. Algo tipo “o pior já passou”. Como eu já estava lá, poderia aproveitar a oportunidade pra ver mesmo esse lugar. Medo é um sentimento necessário na vida – se ele não existisse, a gente viveria como se nada de mal pudesse acontecer e morreria como resultado disso. Mas vi que, quando deixava o medo me cegar, eu não estava realmente vivendo. Estava meio que me escondendo.

Chinatown pode ser bem difícil. No entanto, é isso que o “desconhecido” tem para oferecer: possibilidades obscuras que podem te deixar assustado, amedrontado, relutante ou mesmo cheio de preconceito, mas também podem te deixar cheio de informações novas e feliz pela oportunidade de conhecê-las. Eu só soube disso quando resolvi dar uma chance.

Eu sabia que tinha um cinema na West Houston e decidi andar até lá. Vi mais gente na rua nesse caminho – um cara que me perguntou se eu “precisava de alguma coisa” (eu disse que não, mas não entendi o porquê da pergunta) e outro cara dando bom dia -, mais carros e mais lojas, como mercados, bancas de jornal e até locadoras. Eu ainda me sentia como alguém totalmente de fora, mas para me sentir parte dessa comunidade eu teria que mudar toda a minha cultura ou vice-versa. Deixa assim mesmo que é mais negócio.

Acabei chegando ao cinema e comprei meu ingresso pra ver “Magia ao Luar”. Porque poucas coisas são tão típicas de Nova York como filmes de Woody Allen e se perder no metrô. Quando cheguei na sala, eu ouvia os trens passando debaixo da terra e sentia o chão tremendo um pouco. É irônico e engraçado (meio engraçado tipo Woody Allen) que eu estava procurando o metrô/a direção esse tempo todo e agora ela estava bem ali, debaixo de mim.

Tem um bairro asiático na minha cidade. Se chama Liberdade. Povos asiáticos (principalmente japoneses) vieram para o Brasil a partir do começo do século XX em busca de vidas melhores. Neste local, eles mantém a arquitetura típica e festejam os costumes tradicionais de seu povo, acho que como também acontece de certa forma em Nova York com os chineses. Eles saíram de suas cidades natais e aprenderam a viver em uma vizinhança diferente com pessoas diferentes de um país diferente. Muita coisa para se ter medo, certamente. Mas ser capaz de ter toda essa experiência, de ver o mundo como nunca antes e viver a vida que se escolheu é libertador. Isso é liberdade.

Ser flanêur também é ser livre. Não esqueça do seu cachecol nos dias frios e vai ficar tudo bem.

Até você, Chinatown. NY ❤

PS: Escrevi esse texto para minha aula de escrita criativa em Nova York e minha professora sugeriu que o título fosse Flanêurette, versão feminina de flanêur, que é um substantivo masculino. E ainda ganhei um Bravo! dela por desbravar NY desse jeito. Foi um acidente, como puderam ler, mas tamo aí na atividade ; )

 

Minha primeira vez (em uma cozinha comunitária)

Eu sempre falei sobre mim mesma como alguém que gosta de comer. Bastante. Eu amo comer. Eu poderia dizer que já comi um cheesecake inteiro sozinha uma vez (era festa de fim de ano, todo mundo faz ogrice, né? Não?) ou que já sinto fome geralmente meia hora depois de qualquer refeição, mas eu acho que, para uma primeira impressão, isso não soaria muito bem, então esquece.

O fato é que eu nunca precisei cozinhar. Eu não sou casada e raras vezes ouvi aquela frase de vó “já pode casar!” – todas foram quando fiz doces. Eu ainda moro com meus pais e minha mãe cozinha super bem. Eu vejo receitas e fotos de comida no Pinterest e, em vez de pensar “que legal, quero fazer”, eu penso “por que tentar fazer se eu sei que vai ficar uma bosta e eu posso comprar tudo bonitinho?”. Então tô acostumada a ter comida decente em casa e comida #gordasafada por preços módicos (ou nem tanto, visto que sou de São Paulo, uma cidade dominada pelo raio da gourmetização).

No entanto, essa situação mudou um pouco. Decidi que iria morar longe de tudo e de todos na cidade que eu já sabia que amava mesmo antes de conhecer: Nova York. E fui. Morei em um prédio estilo dormitório que abrigava estudantes de várias faculdades e escolas. Em vez da comidinha da minha mãe, eu tinha uma cozinha comunitária. E eu teria que usá-la se quisesse sobreviver.

Quando eu cheguei lá pela primeira vez, vi que não é só uma cozinha comunitária. Tinha uma mesa comunitária também. Esquentei meu frango teryiaki congelado com arroz e vegetais, enchi um copo de água, tirei meu Ben & Jerry’s sabor Red Velvet Cake (aka o melhor sabor do mundo) da bolsa e sentei. Do meu lado esquerdo, tinha uma menina com uma caixa em que estava escrito “A história da Quinua”. Do meu lado direito, um cara com uma garrafa (é, era mais pra uma garrafa do que pra o potinho que a gente conhece) de ketchup que, juro, era maior que o prato de macarrão dele. Na minha frente, um cara que também estava com comida congelada e também tinha trazido sorvete de sobremesa (sério). Também na minha frente, uma menina parou de comer sua salada quando o clipe de “Shake It Off” da Taylor Swift apareceu na TV. Ela começou a dançar um pouco na cadeira. As meninas do outro lado da mesa também. Eu percebi que também estava balançando minha cabeça no ritmo da música.

Eu entendo a ideia de cozinha como um local social(izador). Um lugar que junta as pessoas por causa da comida. Esse conceito é confirmado ao mesmo tempo em que é desconstruído nessa cozinha comunitária. É claro que ela junta as pessoas – até demais. Tinha uma menina perto de mim cuja comida (um arroz amarelo com um steak) tinha cara e cheiro tão bons que eu só queria dizer “I’ll have what she’s having”. Mas, apesar de as pessoas estarem “juntas”, eu não tive a sensação de “união”. Apenas alguns estavam cozinhando em grupo, a maioria das pessoas estavam comendo sozinhas, uma menina estava tirando foto da comida dela (a mesma que estava dançando na cadeira) e alguns estavam até fazendo sei lá o que no computador enquanto comiam.

Depois do meu primeiro dia na cozinha comunitária, comecei a pensar que talvez a palavra comunidade se refira, além do conceito de sociedade, ao conceito de compartilhamento. Quem estava cozinhando compartilhava os fogões e pias, as meninas compartilhavam o gosto pela música ambiente da cozinha, as pessoas no computador compartilhavam o wifi, eu compartilho a falta de talento para cozinhar com o cara que também tinha comprado sua comida congelada. Eu sempre fui mais interessada em comer, mas ver como outras pessoas do mundo todo comem e preparam suas comidas é bastante interessante também a cada jantar.

O clipe da Taylor Swift terminou. A menina parou de dançar na cadeira e compartilhou a foto da comida no Instagram.

Eu e Rachel na cozinha daria o melhor episódio de Friends de todos os tempos

Epílogo: Consegui sobreviver em NY mesmo sem cozinhar, com a valiosa ajuda dos meus amigos Subway, Starbucks, Shake Shack e Smart Ones (a marca da comida congelada). Mesmo assim jantei na cozinha comunitária e nem fui julgada pelas minhas pobres escolhas gastronômicas. Um lugar que guardo no ❤

Epílogo 2: Nem sou tão inútil na cozinha. Sei fazer macarrão, ovo frito, strogonoff de queijo, salada e qualquer modalidade de comida que possa ser grelhada no George Foreman. Sem falar nos doces como pavês, bolo de caneca e cheesecake. Ou seja, já posso casar se o noivo não for muito exigente (isso vale não só pra minha falta de prenda com as panelas, mas para toda a minha pessoa).

Filha única, único decreto: não enche

Às vezes, as pessoas fazem algumas perguntas sem querer ser muito intrometidas, mas já subentendendo que você vai dar determinada resposta que será a explicação para uma suspeita negativa delas. Por exemplo, se você anda meio perdido pela rua ou pelo metrô, não te perguntam se você está com algum problema, ou mesmo por que você anda tão devagar. Te perguntam se você não é daqui.

Um exemplo mais clássico disso é: quando a pessoa é meio chata, ou criteriosa, ou aparenta não dar valor àquilo que ela tem, não se pergunta sobre isso. Geralmente, a pergunta é: você é filha única?

Ser filha única é uma coisa mágica. É só você dizer que é e, automaticamente, as pessoas já tiram 437634 conclusões sobre você. Experimenta um dia (mas num dia em que você estiver bem zen e quiser rir da perspetiva alheia – sério, só rindo mesmo). Já te adianto que o que você deve ouvir são coisas do tipo: “ah, então é mimada”, “nunca precisou dividir, né” e “vish, ciumenta!”.

Ouvi isso de um médico essa semana e fiquei puta. Fui pra consulta porque estou com sintomas de gastrite nesse ano. Ele, acreditando que meu estômago estava chiando porque eu guardo 98% das minhas angústias pra mim mesma (no que estava certo), concluiu que eu fazia tempestade em copo d’água porque sempre tive tudo de bandeja na vida (no que não podia estar mais errado). E logo completou: “é filha única? ah, então tá explicado. todo filho único nega, mas são sempre mimados”.

Querido médico, vamos analisar suas belas palavras. Se eu realmente tivesse tudo na minha mão sempre que eu quisesse, provavelmente não estaria com gastrite nervosa, né? Sei lá, só acho. Segundo, é questionável a questão do “mimada”. De fato, eu moro com a minha avó e ela faz as sobremesas que eu gosto, sim. Mas, de fato também, meus pais não pagam nenhuma das minhas contas pessoais desde que comecei a ganhar meus próprios salários e nem saem para brigar por mim por coisa alguma desde que eu me entendo por gente. Então né? Generalização babaca, a gente vê por aqui.

É claro que isso é um desabafo pessoal, mas todo filho único sabe do que eu tô falando. Exite uma tendência a condenar a conduta de uma pessoa que não tem irmãos como se fosse culpa dela. Não interessa se meus pais não tiveram saúde e/ou grana pra ter um segundo filho, se eles nunca me colocaram num pedestal por isso ou se eu me sinto solitária em qualquer evento de família. Interessa julgar as minhas dificuldades como consequências disso. E achando que é super normal e que não ofende, porque, afinal, eu tive o privilégio de não crescer com o perrengue de ter um irmãozinho.

Me deixa contar o real perrengue. Como filha única, todo o amor dos meus pais e parentes vêm pra mim, sim. Mas toda a pressão também. Desde passar o vestibular até ter um namorado, casar, e prover netos (sim, ouço essas cobranças constantemente). E, caso isso não aconteça, vou envelhecer sozinha, sem um irmão pra compartilhar minhas memórias de infância. Pior, vou ver o envelhecimento dos meus pais sem um irmão pra me ajudar a segurar a barra. Ainda parece privilégio?

Da mesma forma que eu não quero ser julgada por ser filha única, também não posso me sentir “coitada” por isso – é apenas uma escolha que eu não tive e uma forma que tenho que levar a vida, ponto. Tanto que eu não acho que isso me defina tanto assim a ponto de ter características pré-estabelecidas. Tenho amigos com irmãos (1, 2, 3) que são muito mais “filhinhos de papai”, muito mais “o mundo gira em torno de mim”, muito mais “Quico, conta tudo pra sua mãe”, mas nem por isso chego neles e falo “ah, você tem irmãos? então tá explicado”. Fez sentido isso? Não, né? Pois é.

Defeito todo mundo tem, uns são por circunstâncias pelas a pessoa passou (ou não passou) e outros nasceram com ela. Eu ouço que sou “filha única” (sim, é “defeito”) há 22 anos, e né, se fosse resposta para todos os meus problemas eu com certeza não estaria gastando meu dinheiro com omeprazol.

Daí você pode estar pensando, “tá, mas escrever um post desse é a coisa mais filha única mimadinha mimimi que se pode imaginar”. Cara, vai ver que é. Mas eu juro que só queria que entendessem que, como filha única, eu não ganhei um irmão. Ganhei um monte de gente pentelha que vem encher meu saco desde sempre por circunstâncias que dizem mais respeito aos meus pais do que a mim – e que eles também não são obrigados a ficar se justificando. Até porque a vida também é única, para que cada um cuide e mime (mas mime bastante mesmo) apenas a sua.

Só queria lembrar que Rachel tinha duas irmãs e era a mimada da série, enquanto Chandler era filho único e também o mais cagado na vida, obrigada

Resoluções de ano novo para uma vida amorosa menos zoada

Eu não costumo fazer muitas resoluções de ano novo porque, em geral, as coisas que eu mais desejo nos anos novos não dependem de mim (esse é o momento em que você bate palmas pra minha vida e minhas escolhas).

Ao mesmo tempo, eu amo fazer listas (inclusive terei um site disso muito em breve). Daí, como esse é um blog que eu tenho pra rever e repensar nas coisas que eu vejo e que acontecem por aí, por que não fazer um esforcinho e pensar em algumas resoluções pra ter um 2014 melhor (no meu caso, um 2014 menos errado)?

Falando nisso, uma das coisas mais erradas da minha existência sempre foi a vida amorosa. Não sou dessas super experientes, mas as experiências que eu tive, olha…digamos que é uma vida amorosa que implora por resoluções.

Então tá, vou contar algumas das minhas metas para uma vida de “solteira sim, sozinha talvez não, vai que” melhor neste ano:

(Lembrando que isso é um texto pra você não levar a sério, é pra dar uns risinhos, quando eu amo mesmo eu tô cagando pra tudo isso. E se você é meu ex e tá lendo, desculpa, é pra ser brinks, don’t look back in anger)

– Mais exigência com a foto do Facebook

Você se esforça, passa maquiagem, arruma o cabelo, tira 36364 selfies pra uma ficar boa e virar sua foto de perfil. Aí o lindo tá lá, com foto fazendo careta, foto com óculos espelhado mostrando a língua, foto olhando pra baixo, foto que só mostra o braço tatuado. Nada contra ser engraxadinho e fazer careta pra foto, nada contra óculos espelhado (mentira, acho melhor não, né), nada contra foto olhando pra baixo que deixa seu nariz maior, nada contra seu braço fechado (aliás, esse tava parabéns). Mas sei lá, só uma vez na vida eu queria não precisar dizer para os amigos: “Ah, essa foto tá meio ruim mas pessoalmente ele é melhorzinho”.

– Menos nomes que eu não sei dizer

Eu sou uma pessoa que só tem nomes comuns (Fernanda Rodrigues de Almeida Lopes). Então, em geral, eu acho bonito quem tem nome estranho, acho mesmo. Provavelmente 98% dos meninos com quem eu já fiquei tinham sobrenome diferente (às vezes diferente demais. Às vezes configurava bullying). Mas é um objetivo ter ao meu lado pessoas que eu pelo menos saiba falar o nome. Que eu diga o nome do meu amor pros meus pais e não ouça de volta um “ãhn”? Não vou recusar se o amor atender por dhfvsbds, mas sabe, não é difícil. Um amigo meu tem no celular dele o número de um cara gato e super legal que ele conheceu. Mas o contato do menino tá só com a letra “W” porque até hoje ele não entendeu o nome. É isso que eu quero evitar. Por uma vida amorosa com o mínimo de dignidade.

– Menos é mais. Aliás, você sabe a diferença entre mas/mais, queridinho?

Como jornalista, pessoa que escreve 15 textos por dia para ganhar um salário no fim do mês, eu devo mesmo ser mais chata que o normal com regrinhas de gramática. Mas também já acho que é palhaçada com a minha cara quem fala comigo sem saber diferenciar mas/mais. Sem saber que é ansioso, não ancioso. Autocorretor taí pra isso também, amigos. ~Sedussão~ não vai rolar em 2014 se não souber escrever um pouquinho, obrigada.

– Mais noção pra saber a hora de dar tchau

Nesse ano que se foi, eu ouvi coisas do tipo: “não posta que eu tô aqui pra fulaninha não ver”. “Então, eu gosto de loiras (não teria problema, caso eu não fosse a pessoa mais morena em um raio de 400m)”. Vi gente me cutucando durante semanas e não chamando pra sair. Gente prometendo mundos e fundos e desmarcando 2h antes. Eu poderia culpar esses amores por não serem muito legais comigo. Poderia culpar Deus por jogar esse povo na minha vida. Mas na verdade vou culpar só a mim mesma, por não dar um basta quando precisava e me iludir quando não precisava. Desejo um pouco menos de moleza pro meu coração em 2014, eu acho.

– Mais simpatia, sei lá

É fato que eu não sou uma pessoa simpática. Eu até tento ser, de verdade, mas eu não sou naturalmente carismática, dessas que atrai pessoas ao seu redor. Não que eu queira tomar um banho de feromônio e atrair todos os homens, Deus me livre. Mas acho que poderia ser um pouco mais de boas e ter mais contatos, conhecer mais pessoas. Nem que for pra conseguir mais histórias como as dos parágrafos acima. Essa é uma resolução pra vida social como um todo.

Então é isso, espero manter essas resoluções, espero que entendam que é tudo uma grande brincadeira com fundinho, bem lá no fundo, de verdade. E espero ter um 2014 menos Taylor-Swift-dedo-podre, amém.

Quando toca na balada, fecho o olho e digo “minha música”, confesso